Ernest Hemingway
Tradução do texto original com o título
The Snows of Kilimanjaro
in The snows of Kilimanjaro and Other Stories
Penguin Books, 1968
©Luís Varela Pinto
Kilimanjaro é uma montanha coberta de neve, a 6.000 metros de altitude, e diz-se que é a montanha mais alta da África. O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.
As Neves do Kilimanjaro
“O que é fantástico
é que isto é indolor,” disse ele. “É assim que ficamos
a saber quando ela começa.”
“É assim realmente?”
“Absolutamente. Mas,
desculpa este cheiro. Deve incomodar-te.”
“Não! Por favor,
não digas isso.”
“Olha para eles,” disse
ele. “É o que vêem ou o que lhes cheira que os atrai desta
maneira?”
A cama de lona em que
o homem estava deitado estava na extensa sombra de uma mimosa, e quando
ele olhou para além da sombra, no brilho intenso da planície
viam-se três daquelas aves obscenamente agachadas, enquanto, no céu,
mais uma dúzia voava, fazendo sombras velozes quando passavam.
“Eles andam ali desde
o dia em que a camioneta avariou,” disse ele. “Hoje foi a primeira vez
que alguns poisaram. Reparei na maneira como eles voam, ao princípio
com muito cuidado, para o caso de eu alguma vez os querer utilizar numa
história. É engraçado.”
“Espero que não,”
disse ela.
“Estou só a falar,”
disse ele. “As coisas ficam mais fáceis se eu falar. “Mas não
quero incomodar-te.”
“Tu sabes bem que isso
não me incomoda,” disse ela. “É que fiquei tão nervosa
por não poder fazer qualquer coisa. Parece-me que devíamos
facilitar as coisas o mais possível até que o avião
chegue.”
“Ou até que o
avião não chegue.”
“Diz-me, por favor,
o que é que eu posso fazer. Há-de haver alguma coisa que
eu possa fazer.”
“Podes arrancar-me a
perna, e isso talvez resolvesse a questão, embora tenha as minhas
dúvidas. Ou podes dar-me um tiro. Tu já tens uma boa pontaria.
Eu ensinei-te a atirar, não foi?”
“Por favor, não
fales assim. Eu podia ler-te qualquer coisa.”
“Ler o quê?”
“Um livro qualquer daqueles
que estão no saco e que ainda não lemos.”
“Não estou capaz
de ouvir,” disse ele. “Falar é mais fácil. Discutimos, e
isso ajuda a passar o tempo.”
“Eu não discuto.
Eu nunca quero discutir. Vamos acabar com as discussões. Por mais
nervosos que estejamos. Talvez eles voltem hoje com outra camioneta. Talvez
o avião chegue.”
“Eu não quero
sair daqui,” disse o homem. “Não faz sentido sair daqui, a não
ser para te facilitar as coisas.”
“Isso é cobardia.”
“Será que tu
não és capaz de deixar uma pessoa morrer sem lhe chamar nomes?
De que serve insultares-me?
“Tu não vais
morrer.”
“Não sejas parva.
Eu já estou a morrer. Pergunta àqueles canalhas.” Olhou para
o sítio onde estavam aquelas enormes aves imundas, agachadas, com
as cabeças nuas enterradas nas penas arqueadas. Uma quarta desceu
em voo planado, para depois correr rapidamente, e finalmente, bamboleando-se,
caminhou vagarosamente em direcção às outras.
“Eles andam sempre por
perto em todos os acampamentos. A gente nunca repara neles. Tu não
morres se não desistires.”
“Onde é que leste
isso? És uma idiota chapada.”
“Podias pensar em arranjar
outra pessoa.”
“Por amor de Deus,”
disse ele. “Não tenho feito outra coisa.”
Estendeu-se então
na cama e ficou calado por momentos a olhar para a orla do bosque através
da luz trémula do calor. Muito longe, viu uma manada de zebras brancas,
contra o fundo verde do bosque. O acampamento era agradável, sob
grandes árvores, junto a uma colina, com boa água, e, muito
perto, um charco quase seco, onde, de manhã, voavam galinhas bravas.
“Não queres que
te leia qualquer coisa?” perguntou ela. Estava sentada numa cadeira de
lona ao lado da cama. “Está-se a levantar uma brisa.”
“Não, obrigado.”
“Talvez a camioneta
venha.”
“A camioneta não
me interessa nada.”
“A mim interessa.”
“A ti interessam-te
tantas coisas que a mim não interessam nada.”
“Não são
assim tantas, Harry.”
“E se eu bebesse qualquer
coisa?”
“Deve fazer-te mal.
Diz no Black que se deve evitar o álcool. Não devias beber.”
“Molo!” chamou ele.
“Diga, Bwana.”
“Traz-me whisky-soda.”
“Sim, Bwana.”
“Não devias,”
disse ela. “É isso que eu quero dizer com desistir. Faz-te mal.
Eu sei que te faz mal.”
“Não,” disse
ele. “Faz-me bem.”
Portanto, agora acabou-se,
pensou ele. Já não teria oportunidade de o acabar. Portanto,
o fim era assim, uma questiúncula acompanhada de uma bebida. Desde
que a gangrena começara na perna direita ele não sentia dores,
e com a dor fora-se também o horror, e tudo o que ele agora sentia
era um grande cansaço e irritação por aquilo ser o
fim. Em relação àquilo que estava para chegar, não
tinha grande curiosidade. Durante anos, tinha-o obcecado; mas agora não
significava nada em si mesmo. Estranho, como o cansaço facilitava
as coisas.
Já não
escreveria as coisas que tinha reservado só para escrever quando
soubesse o bastante para escrever bem. Bom, também não teria
de falhar na tentativa de as escrever. Talvez nunca viesses a ser capaz
de as escrever, e essa era a razão por que as adiavas e atrasavas
o seu começo. Bem, agora, nunca viria a saber.
“Estou arrependida de
ter vindo,” disse a mulher. Estava a olhar para ele, com o copo na mão
e a morder o lábio. “Tu nunca terias arranjado um problema como
este em Paris. Sempre disseste que adoravas Paris. Podíamos ter
ficado em Paris ou ido a outro sítio qualquer. Eu teria ido para
outro sítio qualquer. Eu disse-te que ia para onde tu quisesses.
Se querias caçar podíamos ter ido caçar confortavelmente
na Hungria.”
“O teu maldito dinheiro,”
disse ele.
“Isso não é
justo,” disse ela. “Foi sempre tanto meu como teu. Deixei tudo e fui sempre
para onde quer que tu quisesses ir, e fiz o que tu querias fazer. Mas nunca
devíamos ter vindo.”
“Tu disseste que adoravas.”
“Sim, mas quando estavas
bem. Agora detesto. Não percebo como é que isto te havia
de acontecer à perna. O que é que nós fizemos para
isto nos acontecer?”
“Parece-me que o que
eu fiz foi esquecer-me de lhe pôr tintura de iodo quando a cocei
a primeira vez. Depois não lhe dei importância porque nunca
tinha tido uma infecção. Mais tarde, quando piorou, foi provavelmente
o ter usado aquela solução de fénico, quando os outros
anti-sépticos acabaram que paralisou os minúsculos vasos
sanguíneos e provocou a gangrena.” Ele olhou para ela, “Que mais?”
“Eu não queria
dizer isso.”
“Se tivéssemos
arranjado um bom mecânico em vez de um motorista kukuyu sem experiência,
ele teria verificado o óleo e aquele rolamento da camioneta não
se teria queimado.
“Eu não queria
dizer isso.”
“Se tu não tivesses
deixado a tua maldita gente de Old Westbury, Saratoga, e Palm Beach…”
“Oh, eu amava-te. Isso
não é justo. E ainda te amo. Sempre te amarei. E tu não
me amas?”
“Não,” disse
o homem. “Parece-me que não. Nunca te amei.”
“Harry, que estás
a dizer? Perdeste a cabeça.”
“Não. Não
tenho cabeça nenhuma para perder.”
“Não bebas isso,”
disse ela. “Querido, por favor, não bebas isso. Temos de fazer tudo
ao nosso alcance.”
“Faz tu,” disse ele.
“Eu estou cansado.”
Agora ele recordava
uma estação de caminho de ferro em Karagatch e ele estava
lá com o seu saco e aquilo era o farol do Simplon-Orient a rasgar
a escuridão e ele ia partir da Trácia depois da retirada.
Era uma das coisas que ele tinha reservado para escrever, e também,
de manhã ao pequeno almoço, a olhar pela janela e a ver a
neve nas montanhas da Bulgária e a Secretária de Nansen a
perguntar ao velho se aquilo era neve e o velho a olhar e a dizer, Não,
aquilo não é neve. Ainda é cedo para a neve. E a Secretária
a repetir para as outras raparigas, Não, estão a ver. Não
é neve e elas todas a dizerem, Não é neve, estávamos
enganadas. Mas era neve, sim senhor e ele mandou-as para lá quando
elaborou a troca de populações. E foi neve que elas palmilharam
até morrerem nesse inverno.
Foi neve também
que caíu durante toda a semana do Natal nesse ano no Guaertal, naquele
ano que viveram na casa do lenhador com o fogão de porcelana que
enchia metade da sala, e dormiam em colchões cheios de folhas de
faia, na altura em que chegou o desertor com os pés ensanguentados
na neve. Ele disse que a polícia andava atrás dele e eles
deram-lhe meias de lã e demoraram os polícias à conversa
até as marcas terem desaparecido.
Em Schrunz, no dia
de Natal, a neve brilhava tanto que fazia doer os olhos quando se olhava
pela janela do weinstube e se via toda a gente a regressar da igreja. Foi
aí que eles andaram pela estrada de piso macio, dos trenós,
e amarela de urina, ao longo do rio, com colinas escarpadas cobertas de
pinheiros, skis pesados ao ombro, e onde eles fizeram aquela grande corrida
pelo glaciar abaixo, acima da Madlener-haus, a neve tão macia de
ver como a cobertura de um bolo e tão leve como o pó e lembrou-se
do ímpeto silencioso que a velocidade causava quando se saltava
como um pássaro.
Nessa altura ficaram
bloqueados por uma tempestade de neve na Madlener-haus durante uma semana,
a jogar as cartas no meio do fumo à luz da lanterna e as apostas
eram cada vez mais altas enquanto Herr Lent perdia cada vez mais. Finalmente
perdeu tudo. Tudo, o dinheiro da skischule e todos os lucros da época
e depois o seu próprio capital. Ele via-o com o seu nariz comprido,
a apanhar as cartas e depois a abrir ‘Sans Voir’. Havia sempre jogo nessa
altura. Jogava-se quando não havia neve, e jogava-se quando havia
neve demais. Pensou no tempo todo que passou a jogar.
Mas nunca escrevera
uma linha sobre isso, nem sobre aquele dia de Natal frio e claro com as
montanhas a verem-se do outro lado da planície que Johnson tinha
sobrevoado para lá da linha para bombardear o comboio dos oficiais
que partiam de licença, metralhando-os à medida que eles
se espalhavam e corriam. Lembrava-se de Johnson depois vir à Messe
e começar a contar o acontecimento. E o silêncio que se fez
e depois alguém a dizer, ‘Canalha assassino!’
Aqueles austríacos
que eles então mataram eram os mesmos com que ele esquiou depois.
Não, os mesmos, não. Hans, com quem ele esquiou todo aquele
ano, tinha estado no Kaiser-Jägers e quando eles foram à caça
juntos no pequeno vale acima da serração tinham conversado
sobre a luta em Pasubio e sobre o ataque a Pertica e Asalone e ele nunca
escrevera uma palavra sobre isso. Nem sobre Monte Corno, nem sobre Siete
Commun, nem sobre Arsiedo.
Quantos invernos
é que ele tinha passado em Voralberg e em Arlberg? Quatro, e depois
lembrou-se do homem que tinha a raposa para vender quando eles foram a
Bludenz, dessa vez para comprar prendas, e do sabor a cereja do belo kirsch,
a escorregadia investida à corrida da neve seca sobre o gelo, a
cantar ‘Hi!Ho! disse Rolly!’ quando se corria o último troço
até ao declive, indo a direito, depois a correr no pomar em três
voltas, e para fora atravessando a vala e até à estrada
com gelo por detrás da estalagem. A desapertar os cintos, a tirar
os esquis e a encostá-los à parte de madeira da estalagem,
a luz do candeeiro vinda da janela, onde, dentro, no calor fumarento a
cheirar a vinho novo, eles tocavam acordeão.
“Onde é que nós
ficámos em Paris?” perguntou ele à mulher que estava sentada
junto dele numa cadeira de lona, agora em África.
“No Crillon. Sabes muito
bem.”
“Sei muito bem porquê?”
“Era onde sempre ficávamos.”
“Não. Nem sempre.”
“Lá e no Pavillon
Henri-Quatre, em St Germain. Disseste que adoravas aquilo lá.”
“A adoração
é um esterqueiro,” disse Harry. “E eu sou o galo que vai para lá
cantar.”
“Se realmente tens de
embarcar,” disse ela, “será que tens mesmo de destruir tudo o que
deixas para trás?” Quero dizer, tens mesmo de levar tudo contigo?
Será que tens de matar o cavalo e a mulher e queimar a sela e a
armadura?”
“Tenho,” disse ele.
“O teu dinheiro era a minha armadura. O meu Swift and Armour.”
“Por favor.”
“Está bem. Vou
parar com isto. Não quero magoar-te.”
“Já é
um bocado tarde para isso.”
“Está bem, está
bem. Vou continuar a magoar-te. É mais divertido. A única
coisa que eu gostava de fazer contigo já não posso fazer.”
“Não, isso não
é verdade. Tu gostavas de fazer muitas coisas comigo, e tudo o que
tu querias fazer eu fazia.”
“Oh, por amor de Deus,
pára com essa gabarolice, sim?”
Ele olhou para ela e
viu-a a chorar.
“Ouve,” disse ele. “Achas
que eu me estou a divertir muito com isto? Não sei por que estou
a fazê-lo. Acho que, ao tentar matar, a pessoa está a procurar
manter-se viva. Eu estava bem quando começámos a conversar.
Eu não tinha a intenção de começar com isto,
e agora estou completamente maluco e estou a ser cruel contigo o mais possível.
Não ligues ao que eu digo, querida. Eu amo-te mesmo. Sabes bem que
sim. Nunca amei ninguém como te amo a ti.”
Caíu nas mentiras
habituais que o sustentavam.
“Tu és muito
meigo para mim.”
“Ó minha cabra,”
disse ele. “Minha cabra rica. Isso é poesia. Já estou cheio
de poesia. De podridão e poesia. De poesia podre.”
“Cala-te. Harry, por
que é que te hás-de agora transformar num demónio?”
“Não gosto de
deixar ficar seja o que for,” disse o homem. Não gosto de deixar
ficar as coisas para trás.”
Era já quase noite
e ele tinha estado a dormir. O sol já se escondia por detrás
da colina, e agora a sombra cobria toda a planície e os animais
pequenos comiam perto do acampamento; ele via-os a baixarem rapidamente
a cabeça e a abanar a cauda, mantendo-se agora afastados do bosque.
As tais aves já não estavam à espera no solo. Estavam
todas pesadamente empoleiradas numa árvore. Havia agora muitas mais.
O seu boy pessoal estava sentado junto da cama.
“A Memsahib foi caçar,”
disse o rapaz. “O Bwana quer alguma coisa?”
“Nada.”
Ela tinha ido caçar
para arranjar um pouco de carne e, sabendo como ele gostava de observar
os animais, tinha ido para longe de modo a não perturbar aquela
pequena parte da planície que ele abarcava com a vista. Ela era
sempre ponderada, pensava ele. Em tudo o que sabia, ou que tinha lido,
ou de que alguma vez tinha ouvido falar.
Ela não tinha
culpa de ele já estar acabado quando começaram a andar juntos.
Como é que uma mulher podia saber que uma pessoa não queria
dizer nada daquilo que disse; que uma pessoa falava apenas por falar e
para se sentir bem? Depois que começou a fingir que falava verdade,
as suas mentiras eram mais bem sucedidas com as mulheres do que quando
ele lhes dizia a verdade.
Não era tanto
o facto de ele mentir, mas antes o de não haver uma verdade para
dizer. Ele tinha vivido a sua vida e acabara-se e depois continuou a vivê-la
de novo com pessoas diferentes e mais dinheiro, com os melhores dos mesmos
lugares, e alguns novos.
Evitavas pensar e era
tudo fantástico. Armavas-te com um bom íntimo para assim
não ficar despedaçado, como a maioria deles, e tomavas uma
pose que mostrasse que o trabalho que antes fazias não te interessava
nada, agora que já não podias fazê-lo. Mas, para ti
próprio dizias que havias de escrever sobre aquelas pessoas; sobre
os muito ricos; que não eras um deles mas antes um espião
no seu campo; que havia de deixar aquilo e escrever sobre aquilo e por
uma vez aquilo seria escrito por alguém que sabia do que estava
a escrever. Mas ele nunca o faria, porque cada dia sem escrita, sem conforto,
cada dia em que ele era precisamente aquilo que desprezava, entorpecia
a sua capacidade e amolecia a sua vontade de trabalhar, de tal maneira
que, por fim, não fazia mesmo nada. As pessoas que ele agora conhecia
sentiam-se muito melhor quando ele não trabalhava. A África
era o lugar onde ele fora mais feliz nos bons tempos da sua vida, e portanto
tinha lá voltado para começar de novo. Tinham feito este
safari com um mínimo de conforto. Sem privações; mas
também sem luxo, e ele pensara que assim poderia voltar ao treino
daquela maneira. Que de certa maneira poderia desfazer-se da gordura do
espírito tal como um lutador ia para a montanha trabalhar e treinar
para assim queimar a do corpo.
Ela gostara. Disse que
adorava aquilo. Ela adorava qualquer coisa que fosse excitante, que envolvesse
uma mudança de cenário, onde houvesse boas pessoas e onde
as coisas fossem agradáveis. E ele tinha sentido a ilusão
de recuperar a força de vontade para trabalhar. Ora, se era assim
que as coisas iam acabar, e ele sabia que era, ele não devia começar
a fazer como a serpente que se morde a si própria por ter quebrado
a espinha. A culpa não era desta mulher. Se não fosse ela,
tinha sido outra qualquer. Se ele vivia numa mentira, devia morrer nela.
Ouviu um tiro para lá da colina.
Ela atirava bem, aquele
cabra boa, aquela cabra rica, aquela simpática zeladora e destruidora
do seu talento. Disparate. Ele é que tinha destruído o seu
próprio talento. Por que é que ele havia de culpar aquela
mulher por ela o tratar bem? Ele tinha destruído o seu talento não
o utilizando, com traições a si próprio e àquilo
em que acreditava, bebendo tanto que embotava o gume das suas percepções,
com a preguiça, a indolência, e o snobismo, com o orgulho
e o preconceito, com o bem e com o mal. O que era aquilo? Um catálogo
de livros antigos? De qualquer maneira, o que era o seu talento? Era mesmo
talento mas, em vez de o usar, ele tinha feito negócio com ele.
A questão não era nunca o que ele tinha feito, mas sempre
o que podia fazer. E ele escolhera ganhar a vida com qualquer coisa que
não a caneta ou o lápis. Também era estranho, não
era? que quando se apaixonava por mais outra mulher, essa mulher havia
de ter sempre mais dinheiro do que a anterior. Mas quando já não
estava apaixonado, quando já só andava a mentir, como no
caso desta, agora, que era, de todas, a mais rica, que tinha o dinheiro
todo, que tivera marido e filhos, que tinha arranjado amantes e se tinha
fartado deles, que o amava profundamente como escritor, como homem, como
companheiro, como uma posse de que se orgulhava; era estranho que, quando
ele já não a amava de todo e andava a mentir, que ele fosse
capaz de lhe dar mais pelo seu dinheiro do que quando realmente amara.
Nós devemos ser
feitos para aquilo que fazemos, pensou ele. O nosso talento reside na maneira
como ganhamos a vida, seja ela qual for. Ele vendera a vitalidade, de uma
forma ou de outra, toda a sua vida, e quando os nossos afectos não
estão demasiado envolvidos damos muito mais valor ao dinheiro. Ele
descobrira isto, mas também já nunca o iria escrever. Não,
não o iria escrever, embora valesse bem a pena.
Nesta altura ela apareceu
à vista, a atravessar a planície em direcção
ao acampamento. Vestia calças de montar e trazia a espingarda. Os
dois rapazes traziam uma arma à tiracolo e seguiam atrás
dela. Ainda era uma bela mulher, pensou ele, e tinha um corpo agradável.
Tinha grande talento para a cama e gostava, não era bonita, mas
ele gostava do seu rosto, lia muitíssimo, gostava de montar e caçar
e, claro, bebia demais. O marido morrera quando ela era ainda relativamente
nova e durante um tempo dedicara-se aos seus dois filhos adolescentes,
que não precisavam dela e ficavam embaraçados com a sua presença,
ao seu estábulo, aos livros, às garrafas. Gostava de ler
à noite, antes do jantar e bebia whisky e soda enquanto lia. Pela
hora de jantar, estava já um pouco bebida, e depois de uma garrafa
de vinho ao jantar ficava normalmente embriagada o bastante para dormir.
Isto foi antes dos amantes.
Depois de ter os amantes já não bebia tanto porque então
não precisava de estar bêbeda para dormir. Mas os amantes
aborreciam-na. Tinha estado casada com um homem que nunca a aborrecera,
e esta gente aborrecia-a imenso.
Então, um dos
seus dois filhos morreu num acidente de aviação e depois
disso não mais quis os amantes, e, não sendo a bebida um
anestésico, ela teve de arranjar outra vida. De repente, ficara
agudamente amedrontada de estar só. Mas queria a companhia de alguém
que ela respeitasse.
Tudo tinha começado
muito simplesmente. Ela gostava do que ele escrevia e sempre invejara a
vida que ele fazia. Ela pensava que ele fazia exactamente tudo o que queria.
Os passos que dera para o conquistar, e a maneira como finalmente se apaixonara
por ele, fazia tudo parte de uma progressão regular em que ela construíra
uma nova vida para si própria e ele tinha vendido o que restava
da sua antiga vida.
Tinha-a vendido em troca
de segurança, e também de conforto, isso não se podia
negar, e de mais quê? Não sabia. Ela ter-lhe-ia trazido tudo
o que ele quisesse. Ele sabia isso. Ela era uma belíssima mulher,
também. Ele ia para a cama com ela como com qualquer outra; mas
preferia-a a ela, porque era mais rica, porque era muito agradável
e gostava, e porque nunca fazia cenas. E agora essa vida que ela construíra
de novo estava a chegar ao fim, porque há quinze dias ele não
usara tintura de iodo quando um espinho lhe tinha feito um arranhão
num joelho ao avançarem para tentar fotografar uma manada de gamos
parados, com a cabeça levantada, a espreitar, de nariz no ar, as
orelhas bem estendidas para escutar o primeiro ruído que os precipitaria
para o bosque. Mas eles fugiram antes de ele tirar a fotografia.
Aí vinha ela
agora.
Ele voltou a cabeça
na cama para olhar para ela. “Olá,” disse ele.
“Matei um carneiro,”
disse-lhe ela. “Vai fazer um belo caldo para ti e vou-lhes mandar fazer
puré de batata com o Klim. Como é que te sentes?”
“Muito melhor.”
“Não é
delicioso, isso? Sabes que eu já imaginava isso mesmo. Estavas a
dormir quando fui embora.”
“Fiz uma boa soneca.
Foste para muito longe?”
“Não. Só
até ali adiante, atrás da colina. Foi um tiro bastante bom,
no carneiro.”
“Tu atiras muito bem,
sabes?”
“Adoro isto. Adorei
a África. É verdade. Se ficares bom foi o melhor tempo que
já tive. Tu não imaginas o gozo que foi caçar contigo.
Adorei a região.”
“Eu também gosto.”
“Querido, não
sabes como é maravilhoso ver-te melhor. Eu não suportava
ver-te daquela maneira. Não vais falar mais comigo daquela maneira,
pois não? Promete.”
“Não,” disse
ele. “Eu já não me lembro do que disse.”
“Tu não precisas
de me destruir. Pois não? Eu sou só uma mulher de meia idade
que te ama e que quer fazer o que tu quiseres. Já me destruíram
duas ou três vezes. Não ias com certeza querer destruir-me
outra vez, pois não?”
“Eu gostaria de te destruir
umas vezes, na cama,” disse ele.
“Sim. Essa é
a boa destruição. Foi para sermos destruídos dessa
maneira que nós fomos feitos. O avião vai chegar aí
amanhã.”
“Como é que sabes?”
“Tenho a certeza. Tem
de chegar. Os rapazes têm a madeira toda pronta e a erva para fazerem
a fogueira. Fui ver hoje, outra vez. Há muito espaço para
aterrar e nós temos as fogueiras preparadas, em ambos os extremos.”
“O que é que
te faz pensar que ele vem amanhã?”
“Tenho a certeza de
que vem. Já está atrasado. Depois, na cidade, eles tratam-te
da perna e então nós trataremos de fazer alguma destruição.
Não daquele terrível género falado.”
“Vamos beber um whisky?
O sol já se pôs.”
“Achas que deves?”
“Eu vou beber um.”
“Vamos beber juntos.
Molo, letti dui whisky-soda?” chamou ela.
“É melhor calçares
as botas contra os mosquitos,” disse-lhe ele.
“Depois de tomar banho…”
Enquanto escurecia estiveram
a beber e precisamente antes de escurecer completamente e quando já
não se via para disparar, uma hiena atravessou a clareira a caminho
da colina.
“Aquele patife faz isto
todas as noites,” disse o homem. “Todas as noites há duas semanas.”
“É ela que faz
barulho de noite. Eu não me importo. Mas são animais imundos.”
A beberem juntos, já
sem dores, a não ser o desconforto de estar deitado sempre na mesma
posição, os rapazes a acenderem a fogueira e as suas sombras
a saltar sobre as tendas, ele sentia o regresso da sua anuência a
esta vida de agradável rendição. Ela era, de facto,
muito boa para ele. Ele fora cruel e injusto para com ela, à tarde.
Ela era uma belíssima mulher, realmente maravilhosa. E precisamente
nessa altura lembrou-se de que ia morrer.
A lembrança veio-lhe
numa arremetida; não uma arremetida de água ou de vento;
mas de um vazio súbito, cheirando a mal e o estranho é que
a hiena deslizava levemente ao longo da margem.
“O que foi, Harry?”
perguntou ela?
“Nada,” disse ele. Era
melhor mudares para o outro lado. Para o lado do vento.”
“O Molo mudou-te o penso?”
“Mudou. Agora só
estou a pôr o bórico.”
“Como é que te
sentes?”
“Um bocado enjoado.”
“Vou tomar banho,” disse
ela. “Volto já. Venho comer contigo e depois pomos a cama lá
dentro.”
Portanto, disse ele
consigo, fizemos bem em acabar com as discussões.
Ele nunca tinha discutido
muito com esta mulher, enquanto que com as mulheres que ele amava discutira
tanto que sempre acabavam por matar a relação com a corrosão
das discussões. Ele amara demais, exigira demais e esgotara tudo.
Pensou naquela altura
em que estava só em Contantinopla depois de uma discussão
em Paris antes de ir embora. Passara o tempo com prostitutas e depois,
quando isso acabou, não tinha conseguido vencer a solidão,
mas apenas piorá-la, escrevera-lhe uma carta, à primeira,
àquela que o deixou, uma carta a contar-lhe como não tinha
conseguido vencê-la… como ao julgar vê-la à saída
do Regence ele se sentira todo fraco e enjoado interiormente, e que costumava
seguir uma mulher que se parecia com ela ao longo do Boulevard, com receio
de ver que não era ela, com receio de perder aquela sensação
que aquilo lhe dava. Como todas aquelas com quem dormira apenas lhe faziam
sentir mais a sua falta. Como o que ela lhe fizera não podia nunca
ter qualquer importância uma vez que ele não conseguia deixar
de amá-la. Escreveu essa carta no Clube, completamente sóbrio,
e mandou-a para Nova York pedindo que lhe respondesse para o escritório
em Paris. Assim parecia seguro. E nessa noite, sentindo tanto a sua falta
que se sentiu oco por dentro, vagueou pelo Taxim’s, arranjou uma rapariga,
e levou-a a jantar. Tinha ido depois com ela dançar, ela dançava
mal, e trocou-a por uma quente puta arménia, que se esfregava contra
ele de tal maneira que quase queimava. Ele tirou-a de um artilheiro britânico
subalterno depois de uma briga. O artilheiro desafiou-o lá para
fora e eles lutaram na rua, sobre o empedrado, na escuridão. Ele
tinha-lhe batido duas vezes, com força, ao lado do queixo e quando
viu que ele não caiu, concluiu que tinha ali uma luta séria.
O artilheiro atingiu-o no corpo e depois num olho. Ele atirou-lhe uma esquerda
outra vez, vacilou e caiu ao chão e o artilheiro caíu-lhe
em cima agarrou-lhe o sobretudo e rasgou-lhe uma manga e ele agrediu-o
por duas vezes por detrás da orelha e depois socou-o com a direita
enquanto o afastava. Quando o artilheiro caíu, bateu primeiro com
a cabeça e ele fugiu com a rapariga porque ouviram os M.P.’s a chegar.
Apanharam um taxi que os levou para Rimmily Hiss ao longo do Bósforo,
e de volta, e depois outra vez a noite fria e depois a cama e ele sentiu-a
demasiado madura como parecia, mas macia, como pétala de rosa, melada,
de ventre macio, seios grandes, sem precisar de almofada por baixo das
nádegas, e deixou-a antes de ela acordar com ar desprendido aos
primeiros raios de luz e apareceu no Pera Palace com um olho negro
e o sobretudo de baixo do braço porque lhe faltava uma manga.
Nessa mesma noite
partiu para a Anatólia e lembrou-se mais tarde, nessa viagem, de
ter cavalgado todo o dia pelos campos de papoilas que eles cultivavam para
fazer ópio e como aquilo o fazia sentir-se esquisito, finalmente,
e todas as distâncias pareciam estar erradas, para onde eles tinham
feito o ataque com os recém-chegados oficiais de Constantino, que
não percebiam nada, e a artilharia tinha disparado sobre as tropas
e o observador britânico tinha chorado como uma criança.
Foi nesse dia que
ele viu pela primeira vez mortos com saias de ballet brancas e sapatos
com a pontas reviradas e com pompons. Os turcos tinham vindo com regularidade
aos magotes e ele tinha visto os homens de saias a correr e os oficiais
a disparar sobre eles e depois a correr, eles também, e ele e o
observador britânico tinham corrido também até os pulmões
lhe doerem e a boca ficou cheia daquele sabor a dinheiro e pararam atrás
de umas rochas e lá estavam os turcos a chegar sempre aos magotes.
Mais tarde vira coisas que nunca imaginara e que ainda vira outra vez mais
tarde, muito piores. Assim, quando voltou para Paris dessa vez não
conseguia falar daquilo nem suportava que referissem o assunto. E naquele
café onde ele passou estava aquele poeta americano com uma pilha
de pires à sua frente e uma expressão estúpida na
cara de batata a conversar sobre o movimento Dada com um romeno que disse
chamar-se Tristan Tzara, que trazia sempre um monóculo e estava
com dores de cabeça, e, de volta ao apartamento com a mulher, que,
acabada a discussão, acabada a loucura, ele agora amava outra vez,
feliz por estar em casa, o escritório mandava-lhe o correio para
o apartamento. Então a carta em resposta àquela que ele escrevera
chegou numa bandeja um dia de manhã e quando ele reparou na caligrafia
ficou gelado e tentou esconder a carta debaixo de outra. Mas a mulher disse,
“De quem é essa carta, querido?” e foi o fim do princípio
daquilo.
Recordou os bons
tempos com todas elas, e as discussões. Elas escolhiam sempre os
melhores sítios para as discussões. E por que é que
elas discutiam sempre quando ele se sentia no melhor? Nunca tinha escrito
sobre nada disto, porque, primeiro, nunca queria magoar ninguém
e depois parecia-lhe que havia mais sobre que escrever, para além
daquilo. Mas sempre pensou que acabaria por escrever. Havia tanto para
escrever. Tinha visto o mundo mudar; não apenas os acontecimentos;
embora ele tivesse visto muitos deles e tivesse observado as pessoas, mas
tinha visto a mudança mais subtil e lembrava-se de como as pessoas
eram nas diferentes alturas. Tinha estado por dentro e tinha observado
e era seu dever escrever sobre isso; mas agora nunca o faria.
“Como é que te
sentes?” disse ela. Já tinha saído da tenda, depois do banho.
“Bem.”
“Já queres comer?”
Ele viu Molo atrás dela, com a mesa desdobrável, e o outro
rapaz, com os pratos.
“Eu quero escrever,”
disse ele.
“Devias comer um pouco
de caldo para manter as forças.”
“Eu vou morrer esta
noite,” disse ele. “Não preciso de forças.”
“Por favor, Harry, não
sejas melodramático,” disse ela.
“Por que é que
tu não usas o nariz? Já estou todo podre até à
coxa. Para que diabo me hei-de chatear com o caldo? Molo, traz-me o whisky-soda.”
“Toma o caldo, por favor,”
disse ela calmamente.
“Está bem.”
O caldo estava quente.
Teve de o deixar arrefecer na tigela para o tomar e depois bebeu-o de um
trago.
“És uma excelente
mulher,” disse ele. “Não ligues ao que eu digo.”
Ela olhou para ele com
a sua conhecida cara bem-amada do Spur e Town and Country só um
pouco pior na bebida, só um pouco pior na cama, mas Town and Country
nunca mostraram aqueles seios tão bons e aquelas coxas tão
úteis e aquelas mãos tão acariciadoras, e enquanto
olhava e via o seu tão agradável e bem conhecido sorriso,
sentiu a morte a aproximar-se de novo. Desta vez não havia pressa.
Era um sopro, como de uma aragem que faz a chama da vela tremer e alongar-se.
“Eles podem trazer-me
a rede mais tarde e pendurá-la na árvore e fazer a fogueira.
Esta noite não vou ficar na tenda. Não vale a pena mudar-me.
Está uma noite clara. Não vai chover.
Então era assim
que se morria, em sussurros que não se ouviam. Bem, não haveria
mais discussões. Podia prometê-lo. Não ia agora estragar
a única coisa que nunca experimentara. Se calhar ia. Tu estragavas
sempre tudo. Mas talvez não fosse.
“Tu não sabes
tomar ditados, pois não?”
“Nunca aprendi,” disse-lhe
ela.
“Não tem importância.”
Não havia tempo,
claro, embora desse a sensação de que aquilo se comprimia
de maneira a poder meter-se tudo num parágrafo se se conseguisse
agarrá-lo bem.
Era uma casa de madeira
com as juntas calafetadas com argamassa branca numa colina sobre o lago.
Havia um sino num poste ao lado da porta para chamar as pessoas para as
refeições. Por detrás da casa ficavam os campos e
por detrás dos campos a floresta. Uma fila de choupos ia da casa
até ao embarcadouro. Mais choupos ao longo do pontão. Uma
estrada subia até às colinas acompanhando a orla da floresta
e ao longo da estrada ele apanhava amoras silvestres. Depois a casa ardeu
e todas as armas penduradas sobre a lareira se queimaram e depois os canos
com o chumbo derretido nas câmaras e as coronhas carbonizadas, ficaram
sobre o monte das cinzas que foram utilizadas para fazer soda cáustica
para as grandes caldeiras de ferro do sabão, e tu perguntavas ao
avô se podias brincar com elas, e ele dizia, não. Compreendes,
ainda eram as suas armas e nunca mais comprou outras. E também nunca
mais caçou. A casa foi reconstruída no mesmo local, aproveitando
os destroços, e pintada de branco e da entrada viam-se os choupos
e para além deles o lago; mas nunca mais houve armas. Os canos das
armas que estavam penduradas na parede da casa estavam ali no monte das
cinzas e nunca mais ninguém mexeu nelas.
Na Floresta Negra,
depois da guerra, alugámos um ribeiro de trutas e havia duas maneiras
de lá chegar. Uma era ir pelo vale abaixo, desde Triberg, rodear
a estrada do vale à sombra das árvores que bordejavam aquela
estrada branca, e depois subir por um caminho lateral que seguia pela colina
acima, passando por muitas pequenas quintas com aquelas grandes casas do
Schwarzwald, até o caminho atravessar o ribeiro. Era aí que
a pesca começava.
A outra maneira era
trepar pela orla escarpada dos bosques e depois atravessar o cume das colinas
pelos pinhais e sair para a orla de uma veiga e descer por esta veiga até
à ponte. Havia vidoeiros ao longo do ribeiro, e este não
era grande, mas estreito, claro e rápido, com pequenos poços
nos sítios onde a água tinha escavado a passagem por debaixo
das raizes dos vidoeiros. No Hotel em Triberg o proprietário teve
uma bela época. Foi muito agradável e éramos todos
amigos. No ano seguinte veio a inflação e o dinheiro que
ele tinha feito no ano anterior não chegou para comprar as provisões
necessárias para abrir o hotel e enforcou-se.
Tu podias ditar isto,
mas não podias ditar a Praça Contrescarpe onde as vendedeiras
de flores tingiam as flores na rua e a tinta escorria para o pavimento
de onde os autocarros partiam e os velhos e as velhas, sempre bêbados
de vinho e bagaço ordinários; o cheiro a suor sujo e a pobreza
e a embriaguez no Café des Amateurs e as prostitutas no Bal Musette
por cima do qual viviam. A porteira que acolhia o soldado da Guarda Republicana
no seu apartamento, o capacete emplumado de crinas sobre a cadeira. A locatária
da frente cujo marido era corredor de bicicleta e a alegria dela naquela
manhã na Leitaria quando abriu o L’Auto e viu que ele se classificara
em terceiro lugar no Paris-Tours; a sua primeira grande corrida. Ela corara
e rira e subira as escadas a gritar, com aquele jornal desportivo amarelo
na mão. O marido da mulher que dirigia o Bal Musette era motorista
de taxi e quando ele, Harry, tinha de apanhar um avião muito cedo
batia-lhe à porta para o acordar e eles bebiam um copo de vinho
branco cada um ao balcão cromado do bar antes de partirem. Ele nessa
altura conhecia os moradores daquele bairro porque eram todos pobres.
Naquela Praça
havia duas espécies de gente: os bêbados e os desportistas.
Os bêbados matavam a pobreza dessa maneira; os desportistas superavam-na
com o exercício. Eram os descendentes dos Communards e para eles
não era preciso um grande esforço para saberem da sua política.
Eles sabiam quem matara os pais, os parentes, os irmãos e os amigos
quando as tropas de Versailles entraram na cidade e a tomaram depois da
Comuna e executaram quem quer que apanhassem de mãos calosas ou
que usasse boina ou exibisse qualquer outro sinal de que era um trabalhador.
E naquela pobreza e naquele bairro do outro lado da rua de uma Boucherie
Chevaline e de uma cooperativa vinícola ele tinha escrito o começo
de tudo o que tinha que fazer. Nunca gostara de qualquer outra zona de
Paris como gostava daquela, as árvores esparramadas, as velhas casas
rebocadas de branco e pintadas de castanho na parte de baixo, o verde dos
autocarros naquela praça quadrada, a tinta purpúrea das flores
sobre o pavimento, a descida íngreme da Rua Cardinal Lemoine pela
colina abaixo até ao Rio, e do outro lado o estreito mundo da Rua
Mouffetard apinhada de gente . A rua que subia em direcção
ao Panteão e a outra por onde ele ia sempre de bicicleta, a única
rua asfaltada daquele bairro, macia sob os pneus, com as casas estreitas
e altas e o edifício alto daquele hotel barato onde morrera Paul
Verlaine. Os apartamentos onde eles viviam tinham apenas duas divisões
e ele tinha um quarto no último andar desse hotel, que lhe custava
sessenta francos por mês, onde ele escrevia, e de lá via os
telhados e as chaminés e todas as colinas de Paris.
Do apartamento apenas
se via a loja do vendedor de lenha e carvão. Vendia vinho também,
vinho ordinário. A cabeça de cavalo dourada na parte de fora
da Boucherie Chevaline, onde se viam, penduradas na montra, as carcaças
douradas e vermelhas, e a cooperativa pintada de verde onde eles compravam
o vinho; vinho bom e barato. O resto eram paredes de estuque e as janelas
dos vizinhos. Vizinhos que, à noite, quando algum bêbado,
deitado na rua, resmungava e gemia, naquela ivresse tipicamente francesa
que nos queriam convencer que não existia, abriam as janelas e depois
o murmúrio das conversas.
“Onde está
o polícia? Quando não é preciso o gajo anda sempre
por aí. Deve estar a dormir com alguma porteira. Chama o Agent.”
Até que alguém atirava um balde de água da janela
e os gemidos acabavam. “O que é aquilo? Água. Ah, inteligente.”
E as janelas a fecharem-se. Marie, a mulher-a-dias dele, a protestar contra
o dia de trabalho de oito horas dizendo, “Se o marido trabalha até
às seis, embebeda-se só um bocado a caminho de casa e não
gasta muito. Se trabalha só até às cinco embebeda-se
todas as noites e fica sem dinheiro. É a mulher do trabalhador que
sofre com esta redução das horas de trabalho.”
“Não queres mais
caldo?” perguntou então a mulher.
“Não, obrigado.
Está muito bom.”
“Toma só um bocadinho.”
“Eu queria era um whisky-soda.”
“Isso não te
faz bem.”
“Não, faz-me
mal. Cole Porter escreveu a letra e a música. O saber que vais ficar
louca por mim.”
“Sabes muito bem que
eu gosto que bebas.”
“Pois. Só que
me faz mal.”
Quando ela se for, pensou
ele, vou ter tudo o que quiser. Não tudo o que quiser, mas tudo
o que houver. Sim, sim, ele estava cansado. Cansado demais. Ia dormir um
pouco. Deixou-se ficar quieto e a morte não estava lá. Deve
ter ido a outra rua. Foi aos pares, de bicicleta e deslocou-se em silêncio
absoluto sobre os passeios.
Não, ele nunca
escrevera sobre Paris. Sobre o Paris de que ele gostava. Mas, e o resto,
tudo o resto sobre que ele nunca escrevera?
E o rancho e o cinzento
prateado das salvas, a água rápida e clara nas valas de irrigação,
e o verde pesado da alfalfa? O caminho subia até às colinas
e o gado no verão ficava tímido como os veados. Os gritos
e o ruído regular e aquela mole imensa movendo-se lentamente, levantando
a poeira quando os traziam para baixo no outono. E por detrás das
montanhas, o pico afiado muito claro à luz da tardinha e, a cavalgar
ao longo da caravana, à luz do luar muito brilhante no vale. Recordava
agora a descida através da floresta, no meio da escuridão,
agarrado à cauda do cavalo quando já não se via e
todas as histórias que ele tencionava escrever.
Sobre o moço
de recados, um pateta, que deixaram no rancho e a quem recomendaram que
não deixasse ninguém apanhar feno, e aquele velho patife
do Forks que batera no rapaz quando este trabalhara para ele e que lá
foi para arranjar umas rações. O rapaz a recusar e o velho
a dizer que lhe batia outra vez. O rapaz pegou na espingarda que estava
na cozinha e disparou sobre ele quando tentava entrar no celeiro e quando
eles regressaram ao rancho já ele estava morto há uma semana,
congelado na cerca dos animais, e os cães já lhe tinham comido
uma parte do corpo. Mas o que dele restava foi colocado num trenó,
embrulhado num cobertor, e amarrado com cordas e tu mandaste o rapaz ajudar-te
a arrastá-lo e os dois levaram-no pela estrada, em skis, para a
cidade, a sessenta milhas, para entregar o rapaz, sem que ele fizesse ideia
de que iria ser preso. Pensando que tinha cumprido com a sua obrigação
e que tu eras amigo dele e que seria recompensado. Ele tinha ajudado a
arrastar o velho para que toda a gente soubesse como o velho fora mau,
e como tinha tentado tirar rações que não lhe pertenciam,
e quando o sherife o algemou não queria acreditar. Começara
então a chorar. Esta era uma história que ele tinha guardado
para escrever. Conhecia pelo menos vinte boas histórias dali e nunca
escrevera nenhuma. Porquê?
“Diz-lhes porquê,”
disse ele.
“Porquê o quê,
querido?”
“Nada.”
Ela já não
bebia tanto desde que o tinha com ela. Mas se ele sobrevivesse nunca escreveria
sobre ela, e ele sabia disso. Nem sobre qualquer um deles. Os ricos eram
maçadores e bebiam demais, ou jogavam demais ao backgammon. Eram
maçadores e repetitivos. Lembrava-se do pobre Julian e do romântico
horror que ele tinha deles e de como ele uma vez tinha iniciado uma história
que começava, “Os muito ricos são diferentes de ti e de mim.”
E de como alguém dissera a Julian, sim, têm mais dinheiro.
Mas o Julian não achou graça. Ele pensava que eles eram uma
raça especial e encantadora e quando descobriu que não eram,
isso destroçou-o tanto como qualquer das outras coisas que o destroçavam.
Ele desprezara aqueles
que o destroçavam. Não se era obrigado a gostar disso por
o compreender. Ele podia vencer qualquer coisa, pensava, porque nada o
magoava, se não se preocupasse.
Muito bem. Já
não se preocupava com a morte. Uma coisa que sempre receara era
a dor. Suportava a dor como qualquer pessoa, enquanto esta não se
prolongasse por demasiado tempo e o desgastasse, mas aqui tinha qualquer
coisa que o tinha magoado terrivelmente e precisamente quando sentira que
isso o estava a quebrar, a dor desaparecera.
Recordou a altura,
há muito tempo, em que Williamson, o oficial do bombardeamento,
foi atingido por uma granada que alguém da patrulha alemã
tinha atirado quando ele ia a atravessar o arame naquela noite e pediu,
aos gritos, que o matassem. Ele era gordo, corajoso e um bom oficial, embora
com uma certa inclinação para exibições fantásticas.
Mas naquela noite ele foi apanhado no arame, com um foguete luminoso a
iluminá-lo e as suas entranhas derramadas sobre o arame, e assim,
quando o trouxeram para dentro, vivo, tiveram de o cortar para o libertar.
Mata-me, Harry. Por amor de deus, mata-me. Tinham discutido uma vez sobre
o facto de Nosso Senhor nunca nos mandar qualquer coisa que não
possamos suportar e uma teoria dizia que isso queria dizer que em determinada
altura a dor provocava automaticamente o desmaio. Mas ele lembrava-se sempre
de Williamson naquela noite. Nada o fez desmaiar até que ele lhe
deu todos os comprimidos de morfina que tinha guardado para si próprio
e não deram resultado imediato.
Contudo, isto que ele
agora tinha era fácil; e se não piorasse não era nada
que o preocupasse. Excepto que gostaria de estar em melhor companhia.
Pensou um pouco sobre
a companhia que gostaria de ter ali.
Não, pensou,
quando tudo aquilo que se faz, se faz durante tempo demais, ou tarde demais,
não se pode esperar que as pessoas ainda lá estejam. As pessoas
foram-se todas embora. A festa acabou e agora fica-se com o anfitrião.
Começo a ficar
tão farto da morte como de tudo o resto, pensou.
“É uma chatice,”
disse ele alto.
“O quê, querido?”
“Qualquer coisa que
se faça durante demasiado tempo.”
Olhou-lhe o rosto, entre
ele e a fogueira. Estava encostada para trás na cadeira e a luz
da fogueira brilhava-lhe no rosto de linhas agradáveis e ele viu
que ela estava com sono. Ouviu o ruído da hiena mesmo a seguir à
zona da fogueira.
“Estive a escrever,”
disse ele. “Mas fiquei cansado.”
“Achas que consegues
dormir?”
“Com certeza. Por que
é que não te vais deitar?”
“Gosto de estar aqui
contigo.”
“Sentes alguma coisa
esquisita?”
“Não. Apenas
tenho sono.”
“Eu sinto.”
Ele sentira a morte
a aproximar-se de novo.
“Sabes muito bem que
a única coisa que nunca perdi foi a curiosidade,” disse-lhe ele.
“Tu nunca perdeste nada.
És o homem mais completo que conheci.”
“Meu Deus,” disse ele.
“Que pouco sabem as mulheres. O que é isso? A tua intuição?”
Porque precisamente
nessa altura a morte chegara e pousara a cabeça nos pés da
cama e ele sentiu o seu hálito.
“Nunca acredites nessa
balela da gadanha e da caveira,” disse-lhe ele. “Tanto podem ser dois polícias
de bicicleta como um pássaro. Ou pode ter um focinho largo como
uma hiena.”
Já tinha subido
até ele, mas não tinha forma. Apenas ocupava espaço.
“Diz-lhe que se vá
embora.”
Mas ela não se
foi embora, antes se aproximou mais.
“Tens um hálito
dos diabos,” disse-lhe ele. “Canalha mal-cheirosa.”
Ela aproximou-se ainda
mais, mas mesmo assim, ele não conseguia falar com ela, e quando
ela viu que ele não conseguia falar aproximou-se mais e mais, e
então ele tentou afastá-la sem falar, mas ela trepou para
cima dele de modo que o seu peso estava-lhe todo sobre o peito, e enquanto
ela ali se instalava e ele não podia mexer-se nem falar, ouviu a
mulher dizer, “Bwana já está a dormir. Peguem na cama com
muito cuidado e levem-na para dentro da tenda.”
Ele não conseguia
falar para lhe pedir que a fizesse ir embora, e ela pesou-lhe ainda mais
e ele já não conseguia respirar. E então, enquanto
eles levantavam a cama, subitamente, ficou tudo bem, e o peso desapareceu-lhe
do peito.
Era já de manhã
há algum tempo e ele ouviu o avião. Parecia muito pequenino
e descreveu um grande círculo e os rapazes correram a acender as
fogueiras com querosene, e fizeram montes de erva de modo que havia duas
grandes fogueiras em em cada um dos extremos da planura e a brisa da manhã
soprava-as na direcção do acampamento, e o avião descreveu
mais dois círculos, mais baixo desta vez, e depois desceu até
ao nível do terreno e aterrou suavemente, e, a caminhar na direcção
do acampamento, lá vinha o velho Compton, de calças, casaco
de tweed e chapéu de feltro castanho.
“O que é que
se passa, chefe?” disse Compton.
“Um problema numa perna,”
disse-lhe ele. “Não queres tomar o pequeno almoço?”
“Obrigado. Só
chá. É o Puss Moth, sabes. Não vou poder levar a Memsahib.
Só há lugar para um. A tua camioneta já vem a caminho.”
Helen tinha puxado Compton
aparte e estava a falar com ele. Compton voltou mais alegre que nunca.
“Vamos já levar-te,”
disse ele. “Depois volto para levar a Mem. Mas acho que terei de parar
em Arusha para reabastecer. É melhor irmos já.”
“E o chá?”
“Já sabes que
eu não gosto muito de chá.”
Os rapazes tinham pegado
na cama e rodeando as tendas verdes levaram-na pela rocha abaixo para a
planície até ao avião, passando pelas fogueiras que
ardiam agora muito brilhantes, consumida já toda a erva e espevitadas
pelo vento. Foi difícil pô-lo lá dentro, mas uma vez
lá, ficou sentado no banco de couro, com a perna estendida para
um dos lados do banco onde Compton se sentava. Compton arrancou com o motor
e entrou. Ele acenou para Helen e para os rapazes e quando aquele ruído
se tornou naquele roncar muito familiar deram a volta, o Compie atento
aos buracos dos javalis, e aceleraram, aos solavancos, ao longo da faixa
entre as fogueiras e, com um último solavanco levantaram voo e ele
viu-os todos de pé lá em baixo a acenar, e o acampamento
ao lado da colina que agora começava a ficar achatada, e a planície
a estender-se, maciços de árvores, e o bosque a ficar achatado,
enquanto os rastos dos animais corriam macios até aos charcos secos,
e havia uma nova água que ele nunca conhecera. Os costados já
pequenos e arqueados das zebras, e os gnus, pequenos pontos de cabeça
grande, parecendo trepar quando se deslocavam como que em longos dedos
através da planície, espalhando-se agora que a sombra se
aproximava deles, eram já muito pequenos e os seus movimentos não
eram de galope, e a planície a perder de vista, já amarelo-acizentada,
e à frente o tweed do casaco e o chapéu de feltro do velho
Compie. Depois sobrevoaram as primeiras colinas e os gnus a correr à
sua frente e depois as montanhas com súbitos vales cobertos de florestas
verde claras e as sólidas encostas de bambus e depois floresta densa
outra vez esculpida em picos e depressões, até as atravessarem,
e as colinas desciam e depois outra planície, agora quente, e castanho
púrpura, irregular do calor, e o Compie a olhar para trás
para ver como ele estava. Depois outras montanhas escuras à frente.
E então, em vez
de irem para Arusha, viraram à esquerda, ele evidentemente concluiu
que tinham combustível suficiente, e ao olhar para baixo viu uma
nuvem cor-de-rosa granulada a deslocar-se sobre a terra e no ar, como as
primeiras neves de uma tempestade vinda de parte nenhuma, e ele sabia que
os gafanhotos vinham lá do sul. Começaram então a
subir e parecia que se dirigiam para leste, e depois escureceu e ficaram
no meio de uma tempestade, a chuva tão espessa que parecia que iam
a voar no meio de uma queda de água, e depois saíram e o
Compie voltou-se e mostrou um largo sorriso e apontou e lá à
frente tudo o que ele conseguiu ver, largo como o mundo todo, grande, alto
e inacreditavelmente branco da luz do sol, lá estava o cume quadrangular
do Kilimanjaro. E então ficou a saber que era para lá que
ia.
Precisamente nesse momento
a hiena calou-se na noite e começou a produzir um som estranho,
humano, quase um choro. A mulher ouviu-a e mexeu-se, inquieta. Não
acordou. Em sonhos, estava na casa de Long Island e era a noite da véspera
do début da filha. Sem saber como nem porquê, o pai estava
lá e fora muito grosseiro. Então o som da hiena era já
tão alto que ela acordou e por momentos ficou sem saber onde estava
e com medo. Pegou na lanterna e dirigiu-a para a outra cama que eles tinham
trazido para dentro depois de Harry ter adormecido. Viu o volume do corpo
dele debaixo da rede dos mosquitos, mas ele tinha como que estendido a
perna para fora e ela pendia ao longo da cama. Os pensos tinham caído
todos e ela não conseguia olhar para lá.
“Molo,” chamou ela.
“Molo! Molo!”
Depois disse, “Harry,
Harry!” Depois subindo de tom, “Harry! Por favor. Oh, Harry!”
Não houve resposta
e ela não o ouvia a respirar.
Fora da tenda a hiena
fez aquele mesmo som estranho que a tinha acordado. Mas ela não
ouvia nada senão o bater do próprio coração.