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Ray Bradbury|John Collier|Stanley Ellin| Shirley Jackson| Jack London|W. Somerset Maugham|Jean Stafford
[Capa]
De Bradbury a Stafford,
com paragem em Collier, Ellin, Jackson,
London e Maugham
Quando somos jovens e
inexperientes, as antologias, essas selecções de tesouros
da literatura (contos, poesias, novelas, etc.), provocam-nos sensações
semelhantes às que experimentámos em miúdos nas excursões
efectuadas no comboio fantasma das feiras e recintos de diversões:
uma sucessão de espantos e descobertas, de deslumbramentos e inquietações,
vividos a um ritmo elevado, quase frenético.
Na maturidade, ao explorarmos
esses florilégios, é vulgar o miúdo do comboio fantasma
encontrar-se transformado no amante de pintura em visita às galerias
da pinacoteca. Foi-se a avidez mas desenvolveu-se a capacidade de fruição,
desvaneceu-se a impaciência mas acentuou-se o rigor crítico.
Por esta altura, já nós próprios organizámos
os nossos museus imaginários, as nossas selecções
privadas… Enfim, parafraseando um velho ditado, amador de antologias uma
vez, amador de antologias para toda a vida…
Desde os tempos das
notáveis Antologias Universais, editadas pela Portugália,
sempre me tem deleitado percorrer colectâneas de muitos e variados
contistas, nas quais se torna possível descobrir Maupassant entre
Kipling e Tchekov, autênticos caleidoscópios literários
onde é coisa banal transitar de "A Janela Aberta", de Saki, para
"Chuva", de Maugham, sem ainda se ter esbatido
na memória o mínimo pormenor de "Juventude", de Conrad. Excelência
e diversidade, eis aquilo que, quanto a mim, faz o fascínio e a
perenidade deste tipo de obras. Creio que estes dois factores não
faltaram à chamada na presente antologia, onde surgem sete escritores
(cinco oriundos dos Estados Unidos da América e dois da Grã-Bretanha)
unidos pela língua inglesa e separados por quase tudo o resto —
estilos, temas, temperamentos, maneiras de estar no mundo e na vida…
Um pouco à maneira
do comerciante enamorado da sua mercadoria, a qual exibe à vista
dos passantes enquanto lhe vai exaltando a perfeição e apontando
os traços dominantes, esboço algumas notas apressadas sobre
os contistas e os contos aqui incluídos.
Ray
Bradbury, nascido em Waukegan, Illinois, em 1920, tem-se distinguido
como romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e argumentista.
Contudo, a maioria dos críticos e leitores não hesitará
em manifestar uma acentuada preferência pelos seus contos. Imaginativos,
evocativos, simbólicos, nostálgicos, às vezes sentimentais,
aqui e além irónicos, a resvalarem, numa ocasião ou
noutra, para o fantástico e o macabro, os contos de Bradbury são,
na verdade, aquilo que de melhor ele escreveu. Por detrás de todos
eles, recortam-se, com impressionante nitidez, o poeta e o moralista que
vivem e convivem em Ray Bradbury.
O primeiro livro do
escritor a ser publicado foi Dark Carnival, em 1947. Seguiram-se,
entre outros, The Martian Chronicles (Crónicas Marcianas
ou O Mundo Marciano), de 1950, Fahrenheit 451, de 1951, The
Illustrated Man (O Homem Ilustrado), de 1951, The Golden
Apples of the Sun (Os Frutos Dourados do Sol), de 1953 , The
October Country (O País de Outubro), de 1955, Dandalion
Wine (A Cidade Fantástica), de 1957, The Day it Rained
Forever, de 1959, Something Wicked This Way Comes, de 1962 e
Machineries
of Joy (As Máquinas da Alegria), de 1964.
Death is
a Lonely Business, de 1985, e A Graveyard for Lunatics (Cemitério
de Lunáticos), de 1990, são romances relativamente recentes,
nos quais se assinala o reacender do interesse do autor pelo género
policial, que cultivara nalguns contos dos anos quarenta.
O facto de Ray
Bradbury aparecer normalmente nas colecções de ficção
científica causa alguma irritação a certos puristas,
os quais consideram as suas obras fora dos cânones do género.
Não obstante achar esta questão irrelevante, tenho que admitir
que uma boa parte da ficção de Bradbury se enquadra mais
nos domínios da fantasia e do macabro, dentro daquilo que os americanos
denominam "weird fiction", que propriamente no campo da ficção
científica "pura e dura". Dandelion Wine, por exemplo, nada
tem a ver com o género em questão. Trata-se da narração
de um verão passado numa cidadezinha de província, através
de um sucessão de pequenos episódios, de deliciosas vinhetas
do quotidiano.
A obra-prima de Ray
é, muito provavelmente, The Martian Chronicles, uma colectânea
de histórias unidas entre si pelos temas da conquista e colonização
de Marte e do choque civilizacional que se produz quando os terrenos contactam
os marcianos, seres esquivos, telepáticos e miméticos. Um
livro melancólico e nostálgico, assombrado pelo pavor da
catástrofe nuclear e pelos demónios do racismo, do belicismo
e do colonialismo.
No entanto, Fahrenheit
451 permanece como a obra mais popular do escritor, em parte talvez
por influência do filme homónimo (em Portugal foi exibido
com o título Grau de Destruição) que François
Truffaut dela extraiu em 1966. Fahrenheit 451 é a temperatura
a que um livro se inflama e consome. No romance, localizado num estado
de regime totalitário de um futuro próximo, os bombeiros
queimam as bibliotecas, desencadeando um espantoso contra-ataque: os resistentes
decoram as obras-primas da literatura e do pensamento universal, tornando-se
cada um deles um autêntico livro vivo.
"A
Última Noite do Mundo", "A Estrada"
e "Caleidoscópio" foram, todos
retirados de The Illustrated Man, uma das colectâneas de contos
produzidas no período em que, num ponto de vista praticamente geral
da crítica, o talento do escritor atingiu o zénite: 1946-1955.
Que preferir? A graciosidade de "A Última
Noite do Mundo", a sobriedade (que traz à memória algumas
vinhetas de Hemingway) de "A Estrada" ou o dramatismo
de "Caleidoscópio"? Pessoalmente,
julgo que este último conto é um dos melhores exemplos da
arte do autor, a quinta-essência da sua humanidade e do seu humanismo.
O leitor não estará
certamente à espera que, no mesmo estabelecimento onde lhe vendem
um veneno de efeito fulminante por cinco mil dólares, um filtro
de amor infalível custe… um dólar! Parece um absurdo esta
discordância de preços, não é assim? Em quatro
páginas, o velho comerciante de "The Chaser" desvendar-lhe-á
a férrea lógica do seu pensamento e da sua atitude. Este
um belo exemplo da subtileza, da inteligência e da elegância
do John Collier contista.
Natural de Londres,
John
Collier (1901-1980) passou uma larga parte da vida a deslocar-se entre
Inglaterra, França e Hollywood. Autor de numerosos argumentos cinematográficos,
entre os quais alcançaram excepcional projecção os
de The African Queen (A Rainha Africana), de 1951, e de I
Am a Camera, de 1955, destacou-se ainda como poeta, romancista (His
Monkey Wife, de 1930) e contista (Fancies and Goodnights, de
1951, e The John Collier Reader, de 1972).
John Collier pode considerar-se
um descendente de Edgar Allan Poe, o Edgar Allan
Poe do satírico "The System of Doctor Tarr and Professor Fether"
e do fantasmagórico "The Masque of Red Death". Segue também
o trilho aberto pelo talento de Saki, o ácido e brilhante Saki,
abatido por um "sniper" alemão nas trincheiras da 1ª Guerra
Mundial. Essas influências não o impedem, contudo, de explorar
vias e desenvolver perspectivas profundamente pessoais.
Fancies and Goodnights
está a abarrotar de obras-primas. Se o sorriso irónico acompanha
o desenrolar de "De Mortuis" e "Back for Christmas", o riso abre-se em
"Wet Saturday" (adaptado por Alfred Hitchcock numa curta-metragem para
o seu programa de televisão) e torna-se perfeitamente incontrolável
e estentórico em "Three Bears Cottage", "Over Insurance" e "Another
American Tragedy". Em quase todos estes contos a crueldade, a avareza e
a estupidez humanas são postas em evidência e, em muitos casos,
exemplarmente punidas. Em "Bottle Party", "The Lady on the Grey", "Incident
on a Lake" e "Thus I refute Beelzy", entre outros, fazem a sua aparição
génios, demónios, monstros e feiticeiras, sem que tal facto
abafe o humor das peripécias ou amenize o pessimismo com que o bicho
homem se vê observado. "Evening Primrose" e "Bird of Prey" revelam
um rosto extremamente sombrio do autor. São histórias terríficas,
que nada ficam a dever em relação às melhores obras
do género de Algernon Blackwood e E.F. Benson.
"Uma
Pequena Recordação" e "Pensamentos
Verdes" figuram talvez, a par de "The Steel Cat" e "The Chaser", entre
os contos mais originais do volume. Limitar-me-ei a acrescentar que nestas
duas histórias a gargalhada e o arrepio se sucedem e bastas vezes
se confundem. Considero que o alongar-me mais seria quase uma atitude de
mau gosto, praticamente igual à iniciativa de revelar a identidade
do assassino a quem se prepara para encetar um romance policial…
Quando Julian Symons,
no excelente livro de história e crítica que é Bloody
Murder, assinala, desenvolvidamente, o relevante papel desempenhado
pelo Ellery Queen’s Mystery Magazine na renovação
do conto policial, não se esquece de referir, a crédito dos
editores do magazine, o encorajamento dado aos «dois mais talentosos
contistas policiais dos últimos trinta anos»: Roy Vickers
e Stanley Ellin. Como Vickers e as suas
notáveis histórias do Departamento de Casos Obscuros
estão fora da antologia, viro a minha atenção para
Ellin, não sem antes anunciar o intuito de reincidir em me apoiar
no autorizado julgamento de Symons.
Stanley
Ellin (1916-1986) nasceu em Brooklin, Nova Iorque, e, depois de tentar
diversas profissões, tornou-se escritor a tempo inteiro em 1946.
Não obstante ter publicado romances de sucesso, tais como Dreadful
Summit, de 1948, que deu um filme de Joseph Losey (The Big Night),
The
Key to Nicholas Street, de 1952, adaptado ao cinema por Claude Chabrol
(Leda),
The Eighth Circle, de 1958, premiado com o Edgar
Allan Poe Award,
Mirror, Mirror on the Wall, de 1972, distinguido
com o Grand Prix de Littérature Policière e Stronghold,
de 1975, Ellin deve grande parte da sua reputação aos seus
contos. Estes vieram a lume em Mystery Stories, de 1956 («a
melhor colecção de histórias de crime publicada no
último meio século» — Julian Symons), The Blessington
Method, de 1965 e Kindly Dig Your Grave, de 1975.
Em 1979, Stanley Ellin
reuniu os seus contos num único volume: The Specialty of the
House and Other Stories, com o subtítulo The Complete Mystery
Tales, 1948-1978. Pelo que atrás ficou dito, torna-se quase
redundante classificar de excepcional esta colectânea, a qual resume
trinta e um anos de carreira. Poderão uns preferir, "grosso modo",
os contos da primeira metade do livro e fundamentar a escolha pela inventiva,
a vivacidade e a fantasia que neles descobrem, poderão outros inclinar-se
para as histórias dos últimos segmentos do volume e argumentar
com o aprofundamento da psicologia das personagens e a maior consciencialização
de factores de ordem social aí patentes. Simples questões
de gosto. O livro está recheado, de princípio a fim, (aliás,
abre e fecha com uma obra-prima, pura e simples) de histórias para
cinco estrelas, muito embora tenha de admitir que o núcleo inicial,
o de Mystery Stories, seja fortíssimo. E socorro-me novamente
de Julian Symons para tentar provar que o meu entusiasmo não é
excessivo. Escreve o historiador e crítico em Bloody Murder,
a propósito de Ellin: «Os seus melhores contos vão
além dos limites usuais do género e transformam-se em fábulas,
ocasionalmente ternas, mas mais frequentemente cáusticas, sobre
as formas grotescas da sociedade urbana e os sonhos dos seres humanos que
nela vivem.»
Stanley
Ellin torna-se, simultaneamente, um regalo e um tormento para o antologiador,
incapaz de se libertar com facilidade de angustiosas hesitações,
quando chega a altura da terrível decisão. Que escolher?
A sátira corrosiva de "The Specialty of the House", "The Cat’s Paw"
e "The Blessington Method" ou a intriga romanesca, magistralmente desenvolvida
e rematada por um desenlace surpreendente, de "The Orderly World of Mr.
Appleby", "The Best of Everything" e "The Betrayers"? A armadilha infernal,
em sentido literal, de "The House Party" e "The Seven Deadly Virtues",
a psicanálise de "Fool’s Mate" e "The Other Side of the Wall" ou
as admiráveis análises psiciológicas e sociológicas
de "You Can’t Be a Little Girl All Your Life", "The Day of the Bullet",
“The Question" e "Reasons
Unknown"?
"A
Pergunta" e "Motivos Desconhecidos" são
duas belas obras da maturidade do escritor. Admiro especialmente em "A
Pergunta" o autêntico "strip tease" moral do narrador, dado de forma
extremamente hábil, enquanto "Motivos Desconhecidos" me aparece
como uma nova "tragédia americana", onde os fundamentos e os mecanismos
do capitalismo dos Estados Unidos se vêem analisados e expostos com
implacável severidade e terrível lucidez.
Quando "A
Lotaria" veio a público pela primeira vez, em 1948, nas páginas
de The New Yorker, Shirley Jackson
tinha 29 anos e era uma ilustre desconhecida. O seu quase anonimato desapareceu
nesse momento. O conto foi recebido com um coro de elogios e censuras.
Estas últimas chegaram, em muitos casos, aos insultos e aos pedidos
de cancelamento de assinaturas. Os anos rolaram e "A
Lotaria" firmou-se como uma das obras mais famosas da literatura norte-americana
do século XX, facto este que se traduziu na sua inclusão
em numerosas antologias.
Que "A
Lotaria" é uma parábola, poucos ousarão contestar.
Mas uma parábola de quê, afinal? Da maldição
do pecado original? Da crueldade de tradições ancestrais,
submissa e rotineiramente aceites? Do mal que se vislumbra, aqui e ali,
em sociedades aparentemente evoluídas? Do mecanismo ideológico
criado para manter a ordem estabelecida e assim reforçar o poder
dos poderosos? O conto aí está. Leiam-no, meditem-no e tomem
posição!
A verdade é que
em The Lottery and Other Stories "A Lotaria"
surge como um fenómeno isolado. O terror e a desumanidade são
substituídos nas outras histórias pela sátira hilariante
("Dorothy and My Grandmother and the Sailors", "Colloquy", "The Dummy")
pela denúncia da hipocrisia e do preconceito racial ("Flower Garden"),
pelos episódios plenos de sensibilidade protagonizados por seres
tímidos e fracos ("Like Mother Used to Make", "Trial by Combat")
e crianças solitárias e introvertidas ("Charles", "Afternoon
in Linen"). Hesitou-se entre dois admiráveis retratos de mulheres
vencidas que ainda não conseguiram esquecer os seus sonhos. "Elizabeth"
acabou por se ver preterido em favor de "A Mulher
de Greenwich Village".
Shirley
Jackson (1919-1965) publicou, entre outras obras, as crónicas
familiares Life among Savages, de 1953, e Raising Demons,
de 1957, a narrativa histórica
Witchcraft in Salem Village,
de 1956, e os romances Road through the Wall, de 1948, Hangsaman,
de 1951, The Bird’s Nest, de 1954, The Sundial, de 1958,
The
Haunting of Hill House, de 1959, e We Have Always Lived in a Castle,
de 1962. The Haunting of Hill House teve adaptação
cinematográfica em
The Haunting (A Casa Maldita),
com realização de Robert Wise. Uma obra memorável,
um dos melhores "ghost films" de sempre. Quanto a We Have Always Lived
in a Castle, foi o romance da autora com melhor acolhimento da parte
da crítica. Mas a obra mais célebre de Shirley Jackson, aquela
na qual se baseia grande parte do seu prestígio, continua a ser
"A Lotaria", essa autêntica parábola
negra, essa história de horror e barbárie passada numa manhã
límpida e soalheira de Junho.
Jack
London (1876-1916) escreveu e especialmente viveu a uma cadência
intensa, que lhe arruinou a saúde e o matou jovem. Pescador ilegal,
patrulheiro marítimo, operário fabril, marinheiro de longo
curso, vagabundo, garimpeiro, jornalista, criador de gado, London viajou
clandestinamente nos comboios através do Middle West, pesquisou
ouro no Klondike, investigou as condições de vida nos bairros
pobres de Londres, fez reportagens da guerra russo-japonesa e da revolução
mexicana, atravessou o Pacífico no seu barco à vela e administrou
os 1400 acres do seu "Beauty Ranch". Idealista, romântico, entusiasta,
egocêntrico, megalómano, Jack London
foi uma personagem calorosa e excessiva, «bigger than life»,
que não desdenhou cultivar a própria lenda.
Apoiado numa estrutura
ideológica onde coexistiam um socialismo generoso, ideias extraídas
do darwinismo de Herbert Spencer («a sobrevivência do mais
forte») e conceitos, entendidos de forma algo simplista, de Friedrich
Nietzche («a teoria do super-homem»), Jack
London coloriu a sua escrita com uma espantosa experiência de
vida e um prodigioso talento de contador de histórias. Movido por
uma tremenda ambição e auxiliado por uma excepcional capacidade
de trabalho (impôs a si próprio, durante perto de dezoito
anos, escrever diariamente mil palavras), London publicou cerca de cinquenta
livros e centenas de artigos.
Uma obra tão
vasta, produzida a um ritmo tão dinâmico, forçosamente
resultaria irregular. Livros há, no entanto, no legado de London,
que se conservam populares e que deverão perdurar: o estudo sociológico
The
People of the Abyss, de 1903, as novelas The Call of the Wild
(O Apelo da Selva), de 1903, provavelmente a sua obra-prima, e White
Fang (Colmilhos Brancos), de 1906, o misto de testemunho autobiográfico
e panfleto anti-alcoólico John Barleycorn (Memórias
de um Bebedor), de 1913, os romances The Sea-Wolf (O Lobodos
Mares), de 1904, Martin Eden, de 1909, e The Star Rover
(O Colete de Forças), de 1915. E também as colectâneas
de contos: The Son of the Wolf (O Filho do Lobo), de 1900,
The
God of his Fathers, de 1901, Children of the Frost, de 1903,
Love
of Life (Amor à Vida), de 1907, Lost Face (Cabeça
Baixa), de 1910, The House of Pride and Other Tales of Hawaii
(Os Milhões de Chun-Ah-Chun), de 1912, e On the Makaloa
Mat, de 1919, entre outras.
De entre a obra de Jack
London a minha preferência vai para os seus contos. Creio que, para
só citar alguns exemplos, "The Law of Life",
"The One Thousand Dozen", "Li Wan the Fair", "The League of the Old Men",
"Love of Life", "To Build a Fire" e "Good-bye,
Jack" estão entre as mais belas páginas que London escreveu.
Especialmente os melhores contos do Extremo Norte, onde o escritor cristalizou
e sublimou as suas vivências de pesquisador de ouro no Klondike,
tornaram-se autênticos clássicos da literatura dos Estados
Unidos. Surgem na antologia duas dessas pepitas de ouro.
"A
Lei da Vida" é um pungente cântico fúnebre de um
velho índio abandonado para morrer, aquecido por uma pequena fogueira
e um punhado de recordações. No que diz respeito a "Fazer
uma Fogueira", provavelmente o conto mais célebre de Jack London,
dou a palavra a Frank Luther Mott, na sua introdução a The
Call of the Wild: «(…) London desenha cenários e ambientes
quase sempre bem e às vezes maravilhosamente bem. Há nesses
cenários e ambientes uma contenção sem esforço
que os torna duplamente eficazes. Uma obra-prima desta espécie é
"Fazer uma Fogueira", sem dúvida um dos grandes contos americanos.
Aqui há realmente três personagens: o homem, o seu cão
e o Norte — e dos três o Norte é o mais poderoso. O tempo
atmosférico, a paisagem, a sensibilidade humana — London maneja-os
a todos eficazmente e por vezes magnificamente.»
Só aos 29 anos
William
Somerset Maugham (1874-1965) começou a tornar-se conhecido,
através da peça A Man of Honour. Em breve se tornou
um dos autores teatrais de maior sucesso na Grã-Bretanha, só
cedendo a primazia a Bernard Shaw. Os êxitos sucederam-se:
Lady
Frederick, de 1907, The Circle, de 1921, Our Betters,
de 1923, e The Constant Wife, de 1927, foram talvez os mais brilhantes.
Quando deu por encerrada a carreira de dramaturgo, com Sheppey,
de 1933, estava rico e famoso, com amplos meios para satisfazer a sua paixão
pelas viagens.
Antes de a sua última
peça subir à cena já publicara diversos romances e
livros de contos, os quais mereceram a aceitação e os encómios
do público, compensando-o do mau acolhimento da obra de estreia,
Liza
of Lambeth (Liza, a Pecadora), de 1897. A crítica mostrava-se
(mostrar-se-ia sempre, aliás) bem menos entusiástica. Desagradava
a numerosos críticos a indiferença do escritor pelo modernismo,
a sua fidelidade e gosto pela narrativa e pela trama romanesca. Maugham,
por outro lado, afirmou diversas vezes considerar-se simplesmente um "entertainer"
e não estar minimamente interessado em deixar obra para a posteridade.
Tratava-se, evidentemente, de um exagero e de uma pequena vingança
contra críticos mais severos. Pelo menos três romances de
Maugham são importantes: o já citado Liza of Lambeth,
Of
Human Bondage (Servidão Humana), de 1915, sem dúvida
a sua obra-prima, e Cakes and Ale (Destino de um Homem),
de 1930. Deverão ainda mencionar-se como obras francamente interessantes
The
Moon and Sixpence (Um Gosto e Seis Vinténs), de 1919,
e The Razor’s Edge (O Fio da Navalha), de 1944.
Parece-me bastante equilibrado
o juízo sobre Somerset feito pelo autor (apenas se identifica pelas
iniciais R e K) do prefácio a uma velha edição de
Cakes
and Ale. Transcrevo a parte que julgo mais significativa: «As
qualidades de Somerset Maugham como escritor não são de forma
alguma difíceis de detectar. Um sentido dramático inato permite-lhe
escrever romances sólidos, bem construídos, que nunca deixam
de interessar o leitor. A sua prosa é escorreita e vigorosa e está
sempre marcada por uma precisão que é rara na escrita contemporânea.
Paixão e lirismo não são discerníveis, mas
em seu lugar o leitor encontrará uma ironia soberbamente controlada
e um espírito brilhante.»
Falta referir o contista,
cuja iniciação se fez com The Trembling of a Leaf,
subintitulado Little Stories of the South Sea Islands (Histórias
dos Mares do Sul), de 1921. Vieram depois perto de dez colectâneas,
num total de mais de uma centena de contos. Sobre esta faceta de Maugham,
socorro-me novamente de um trecho da introdução de R.K.:
«Se Somerset Maugham nunca tivesse escrito
uma peça de teatro ou um romance, só os seus contos lhe teriam
assegurado o respeito dos leitores. Estas incisivas historiazinhas, tão
variadas no cenário e no tom, estão carregadinhas de ironia
e observação cuidada. Assemelham-se na técnica aos
contos de Maupassant. Tal como o grande autor francês, Maugham é
capaz de tornar aceitável ao leitor o tema mais sórdido.»
Ironia, inteligência,
elegância e destreza narrativa: eis os principais trunfos do contista,
que nos deixou pérolas do brilho de "Rain",
"The Pool", "Mackintosh", "The Creative Impulse",
"Jane", "Sanatorium", "The Kite", "The Letter", "The Outstation" e "Red",
entre muitas outras.
Presentes na antologia,
"O Instinto Criativo", uma sátira mordaz
aos cenáculos e círculos literários londrinos. E "O
Barco da Ira", adaptado ao cinema em 1938 por Erich Pommer (The
Beachcomber ou The Vessel of Wrath; título português
Mr.Ginger
no Pacífico), com Charles Laughton no principal papel, e em
1955 por Muriel Box (The Beachcomber; exibido em Portugal como O
Vagabundo do Pacífico) protagonizado por Robert Newton. E finalmente
"A Força das Circunstâncias",
uma daquelas histórias de colonizadores britânicos em recantos
do império (cume supremo do autor neste domínio: "The Outstation")
nas quais Maugham nunca deixou de ser excepcional.
O sucesso literário
em pouco amenizou as contrariedades de Jean
Stafford (1915-1979), atormentada por uma série de acontecimentos
e problemas altamente traumáticos: uma adolescência solitária,
num meio familiar que a repelia, o suicídio de uma amiga na sua
presença, um acidente automobilístico, por causa de qual
se viu coagida a submeter-se a cirurgia plástica, primeiro casamento
desastroso, segundo casamento "idem", terceiro casamento terminado, ao
fim de quatro anos de felicidade, pela morte do marido. Resultados: crises
de alcoolismo e depressão, das quais nunca se libertou totalmente.
Em 1976, uma apoplexia sujeitou-a a três anos finais de enorme sofrimento.
Jean
Stafford publicou três romances: Boston Adventure, de
1944, The Mountain Lion, de 1947 e The Catherine Wheel, de
1952, todos eles, especialmente os dois primeiros, bem recebidos pela crítica.
Mas o facto mais relevante da carreira de Jean foi indubitavelmente a publicação
dos seus contos, em Collected Short Stories, de 1969, a qual viria
a ser coroada no ano seguinte com a conquista de prémio Pulitzer
para a ficção. Nas palavras de Jeffrey Scheuer: «O
júri do Pulitzer mencionou ‘a amplitude em temas, cenários
e tons’ destes contos sombrios mas elegantemente trabalhados, os quais
são muitas vezes altamente autobiográficos. As sua personagens
principais, sobretudo mulheres e adolescentes, habitam uma América
dura e nada romântica: um lugar de solidão e perda, onde a
inocência custa a morrer, a convenção social pesa sobre
o indivíduo e a experiência é uma mestra cruel.»
"Pestezinhas"
é uma história de uma comicidade e de uma inventiva (em cada
duas linhas deparamos com pelo menos um pormenor irresistível ou
surpreendente) verdadeiramente supremas. Mas qualquer coisa de patético
espreita dos bastidores da anedota, por detrás das miúdas
em missão de rapinanço no armazém. E não haverá
algum bocadinho da Jean Stafford adolescente
naquela narradora, que não mantém um amigo e quase só
atrai a atenção da família quando finge uma crise
de nervos?
Chegou ao fim esta viagem de Bradbury a Stafford. Se o leitor é do género ordenado («primeiro a introdução, depois os contos»), resta-lhe mergulhar no universo dos autores aqui apresentados. Se o leitor pertence à categoria dos analíticos («quero ler os contos antes do prefácio, para depois comparar opiniões»), é altura de fechar o livro ou de voltar a uma ou outra história e aclarar pontos obscuros ou controversos. Em qualquer dos casos, o leitor (ordenado ou analítico, tanto faz) certamente encetará novas excursões em novas antologias. Pelo menos esta a intenção de quem escreve: estimular o prazer de quem lê.