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Ray Bradbury|John Collier|Stanley Ellin| Shirley Jackson| Jack London|W. Somerset Maugham|Jean Stafford
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Prefácio
(especialmente escrito por Fernando Fausto de Almeida
para os contos dos autores indicados em cima)
 
 

De Bradbury a Stafford,
com paragem em Collier, Ellin, Jackson, London e Maugham


Quando somos jovens e inexperientes, as antologias, essas selecções de tesouros da literatura (contos, poesias, novelas, etc.), provocam-nos sensações semelhantes às que experimentámos em miúdos nas excursões efectuadas no comboio fantasma das feiras e recintos de diversões: uma sucessão de espantos e descobertas, de deslumbramentos e inquietações, vividos a um ritmo elevado, quase frenético.
Na maturidade, ao explorarmos esses florilégios, é vulgar o miúdo do comboio fantasma encontrar-se transformado no amante de pintura em visita às galerias da pinacoteca. Foi-se a avidez mas desenvolveu-se a capacidade de fruição, desvaneceu-se a impaciência mas acentuou-se o rigor crítico. Por esta altura, já nós próprios organizámos os nossos museus imaginários, as nossas selecções privadas… Enfim, parafraseando um velho ditado, amador de antologias uma vez, amador de antologias para toda a vida…
Desde os tempos das notáveis Antologias Universais, editadas pela Portugália, sempre me tem deleitado percorrer colectâneas de muitos e variados contistas, nas quais se torna possível descobrir Maupassant entre Kipling e Tchekov, autênticos caleidoscópios literários onde é coisa banal transitar de "A Janela Aberta", de Saki, para "Chuva", de Maugham, sem ainda se ter esbatido na memória o mínimo pormenor de "Juventude", de Conrad. Excelência e diversidade, eis aquilo que, quanto a mim, faz o fascínio e a perenidade deste tipo de obras. Creio que estes dois factores não faltaram à chamada na presente antologia, onde surgem sete escritores (cinco oriundos dos Estados Unidos da América e dois da Grã-Bretanha) unidos pela língua inglesa e separados por quase tudo o resto — estilos, temas, temperamentos, maneiras de estar no mundo e na vida…
Um pouco à maneira do comerciante enamorado da sua mercadoria, a qual exibe à vista dos passantes enquanto lhe vai exaltando a perfeição e apontando os traços dominantes, esboço algumas notas apressadas sobre os contistas e os contos aqui incluídos.

Ray Bradbury, nascido em Waukegan, Illinois, em 1920, tem-se distinguido como romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e argumentista. Contudo, a maioria dos críticos e leitores não hesitará em manifestar uma acentuada preferência pelos seus contos. Imaginativos, evocativos, simbólicos, nostálgicos, às vezes sentimentais, aqui e além irónicos, a resvalarem, numa ocasião ou noutra, para o fantástico e o macabro, os contos de Bradbury são, na verdade, aquilo que de melhor ele escreveu. Por detrás de todos eles, recortam-se, com impressionante nitidez, o poeta e o moralista que vivem e convivem em Ray Bradbury.
O primeiro livro do escritor a ser publicado foi Dark Carnival, em 1947. Seguiram-se, entre outros, The Martian Chronicles (Crónicas Marcianas ou O Mundo Marciano), de 1950, Fahrenheit 451, de 1951, The Illustrated Man (O Homem Ilustrado), de 1951, The Golden Apples of the Sun (Os Frutos Dourados do Sol), de 1953 , The October Country (O País de Outubro), de 1955, Dandalion Wine (A Cidade Fantástica), de 1957, The Day it Rained Forever, de 1959, Something Wicked This Way Comes, de 1962 e Machineries of Joy (As Máquinas da Alegria), de 1964. Death is a Lonely Business, de 1985, e A Graveyard for Lunatics (Cemitério de Lunáticos), de 1990, são romances relativamente recentes, nos quais se assinala o reacender do interesse do autor pelo género policial, que cultivara nalguns contos dos anos quarenta.
O facto de Ray Bradbury aparecer normalmente nas colecções de ficção científica causa alguma irritação a certos puristas, os quais consideram as suas obras fora dos cânones do género. Não obstante achar esta questão irrelevante, tenho que admitir que uma boa parte da ficção de Bradbury se enquadra mais nos domínios da fantasia e do macabro, dentro daquilo que os americanos denominam "weird fiction", que propriamente no campo da ficção científica "pura e dura". Dandelion Wine, por exemplo, nada tem a ver com o género em questão. Trata-se da narração de um verão passado numa cidadezinha de província, através de um sucessão de pequenos episódios, de deliciosas vinhetas do quotidiano.
A obra-prima de Ray é, muito provavelmente, The Martian Chronicles, uma colectânea de histórias unidas entre si pelos temas da conquista e colonização de Marte e do choque civilizacional que se produz quando os terrenos contactam os marcianos, seres esquivos, telepáticos e miméticos. Um livro melancólico e nostálgico, assombrado pelo pavor da catástrofe nuclear e pelos demónios do racismo, do belicismo e do colonialismo.
No entanto, Fahrenheit 451 permanece como a obra mais popular do escritor, em parte talvez por influência do filme homónimo (em Portugal foi exibido com o título Grau de Destruição) que François Truffaut dela extraiu em 1966. Fahrenheit 451 é a temperatura a que um livro se inflama e consome. No romance, localizado num estado de regime totalitário de um futuro próximo, os bombeiros queimam as bibliotecas, desencadeando um espantoso contra-ataque: os resistentes decoram as obras-primas da literatura e do pensamento universal, tornando-se cada um deles um autêntico livro vivo.
"A Última Noite do Mundo", "A Estrada" e "Caleidoscópio" foram, todos retirados de The Illustrated Man, uma das colectâneas de contos produzidas no período em que, num ponto de vista praticamente geral da crítica, o talento do escritor atingiu o zénite: 1946-1955. Que preferir?  A graciosidade de "A Última Noite do Mundo", a sobriedade (que traz à memória algumas vinhetas de Hemingway) de "A Estrada" ou o dramatismo de "Caleidoscópio"? Pessoalmente, julgo que este último conto é um dos melhores exemplos da arte do autor, a quinta-essência da sua humanidade e do seu humanismo.

O leitor não estará certamente à espera que, no mesmo estabelecimento onde lhe vendem um veneno de efeito fulminante por cinco mil dólares, um filtro de amor infalível custe… um dólar! Parece um absurdo esta discordância de preços, não é assim? Em quatro páginas, o velho comerciante de "The Chaser" desvendar-lhe-á a férrea lógica do seu pensamento e da sua atitude. Este um belo exemplo da subtileza, da inteligência e da elegância do John Collier contista.
Natural de Londres, John Collier (1901-1980) passou uma larga parte da vida a deslocar-se entre Inglaterra, França e Hollywood. Autor de numerosos argumentos cinematográficos, entre os quais alcançaram excepcional projecção os de The African Queen (A Rainha Africana), de 1951, e de I Am a Camera, de 1955, destacou-se ainda como poeta, romancista (His Monkey Wife, de 1930) e contista (Fancies and Goodnights, de 1951, e The John Collier Reader, de 1972).
John Collier pode considerar-se um descendente de Edgar Allan Poe, o Edgar Allan Poe do satírico "The System of Doctor Tarr and Professor Fether" e do fantasmagórico "The Masque of Red Death". Segue também o trilho aberto pelo talento de Saki, o ácido e brilhante Saki, abatido por um "sniper" alemão nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial. Essas influências não o impedem, contudo, de explorar vias e desenvolver perspectivas profundamente pessoais.
Fancies and Goodnights está a abarrotar de obras-primas. Se o sorriso irónico acompanha o desenrolar de "De Mortuis" e "Back for Christmas", o riso abre-se em "Wet Saturday" (adaptado por Alfred Hitchcock numa curta-metragem para o seu programa de televisão) e torna-se perfeitamente incontrolável e estentórico em "Three Bears Cottage", "Over Insurance" e "Another American Tragedy". Em quase todos estes contos a crueldade, a avareza e a estupidez humanas são postas em evidência e, em muitos casos, exemplarmente punidas. Em "Bottle Party", "The Lady on the Grey", "Incident on a Lake" e "Thus I refute Beelzy", entre outros, fazem a sua aparição génios, demónios, monstros e feiticeiras, sem que tal facto abafe o humor das peripécias ou amenize o pessimismo com que o bicho homem se vê observado. "Evening Primrose" e "Bird of Prey" revelam um rosto extremamente sombrio do autor. São histórias terríficas, que nada ficam a dever em relação às melhores obras do género de Algernon Blackwood e E.F. Benson.
"Uma Pequena Recordação" e "Pensamentos Verdes" figuram talvez, a par de "The Steel Cat" e "The Chaser", entre os contos mais originais do volume. Limitar-me-ei a acrescentar que nestas duas histórias a gargalhada e o arrepio se sucedem e bastas vezes se confundem. Considero que o alongar-me mais seria quase uma atitude de mau gosto, praticamente igual à iniciativa de revelar a identidade do assassino a quem se prepara para encetar um romance policial…

Quando Julian Symons, no excelente livro de história e crítica que é Bloody Murder, assinala, desenvolvidamente, o relevante papel desempenhado pelo Ellery Queen’s Mystery Magazine na renovação do conto policial, não se esquece de referir, a crédito dos editores do magazine, o encorajamento dado aos «dois mais talentosos contistas policiais dos últimos trinta anos»: Roy Vickers e Stanley Ellin. Como Vickers e as suas notáveis histórias do Departamento de Casos Obscuros estão fora da antologia, viro a minha atenção para Ellin, não sem antes anunciar o intuito de reincidir em me apoiar no autorizado julgamento de Symons.
Stanley Ellin (1916-1986) nasceu em Brooklin, Nova Iorque, e, depois de tentar diversas profissões, tornou-se escritor a tempo inteiro em 1946. Não obstante ter publicado romances de sucesso, tais como Dreadful Summit, de 1948, que deu um filme de Joseph Losey (The Big Night), The Key to Nicholas Street, de 1952, adaptado ao cinema por Claude Chabrol (Leda), The Eighth Circle, de 1958, premiado com o Edgar Allan Poe Award, Mirror, Mirror on the Wall, de 1972, distinguido com o Grand Prix de Littérature Policière e Stronghold, de 1975, Ellin deve grande parte da sua reputação aos seus contos. Estes vieram a lume em Mystery Stories, de 1956 («a melhor colecção de histórias de crime publicada no último meio século» — Julian Symons), The Blessington Method, de 1965 e Kindly Dig Your Grave, de 1975.
Em 1979, Stanley Ellin reuniu os seus contos num único volume: The Specialty of the House and Other Stories, com o subtítulo The Complete Mystery Tales, 1948-1978. Pelo que atrás ficou dito, torna-se quase redundante classificar de excepcional esta colectânea, a qual resume trinta e um anos de carreira. Poderão uns preferir, "grosso modo", os contos da primeira metade do livro e fundamentar a escolha pela inventiva, a vivacidade e a fantasia que neles descobrem, poderão outros inclinar-se para as histórias dos últimos segmentos do volume e argumentar com o aprofundamento da psicologia das personagens e a maior consciencialização de factores de ordem social aí patentes. Simples questões de gosto. O livro está recheado, de princípio a fim, (aliás, abre e fecha com uma obra-prima, pura e simples) de histórias para cinco estrelas, muito embora tenha de admitir que o núcleo inicial, o de Mystery Stories, seja fortíssimo. E socorro-me novamente de Julian Symons para tentar provar que o meu entusiasmo não é excessivo. Escreve o historiador e crítico em Bloody Murder, a propósito de Ellin: «Os seus melhores contos vão além dos limites usuais do género e transformam-se em fábulas, ocasionalmente ternas, mas mais frequentemente cáusticas, sobre as formas grotescas da sociedade urbana e os sonhos dos seres humanos que nela vivem.»
Stanley Ellin torna-se, simultaneamente, um regalo e um tormento para o antologiador, incapaz de se libertar com facilidade de angustiosas hesitações, quando chega a altura da terrível decisão. Que escolher? A sátira corrosiva de "The Specialty of the House", "The Cat’s Paw" e "The Blessington Method" ou a intriga romanesca, magistralmente desenvolvida e rematada por um desenlace surpreendente, de "The Orderly World of Mr. Appleby", "The Best of Everything" e "The Betrayers"? A armadilha infernal, em sentido literal, de "The House Party" e "The Seven Deadly Virtues", a psicanálise de "Fool’s Mate" e "The Other Side of the Wall" ou as admiráveis análises psiciológicas e sociológicas de "You Can’t Be a Little Girl All Your Life", "The Day of the Bullet", “The Question" e "Reasons Unknown"?
"A Pergunta" e "Motivos Desconhecidos" são duas belas obras da maturidade do escritor. Admiro especialmente em "A Pergunta" o autêntico "strip tease" moral do narrador, dado de forma extremamente hábil, enquanto "Motivos Desconhecidos" me aparece como uma nova "tragédia americana", onde os fundamentos e os mecanismos do capitalismo dos Estados Unidos se vêem analisados e expostos com implacável severidade e terrível lucidez.

Quando "A Lotaria" veio a público pela primeira vez, em 1948, nas páginas de The New Yorker, Shirley Jackson tinha 29 anos e era uma ilustre desconhecida. O seu quase anonimato desapareceu nesse momento. O conto foi recebido com um coro de elogios e censuras. Estas últimas chegaram, em muitos casos, aos insultos e aos pedidos de cancelamento de assinaturas. Os anos rolaram e "A Lotaria" firmou-se como uma das obras mais famosas da literatura norte-americana do século XX, facto este que se traduziu na sua inclusão em numerosas antologias.
Que "A Lotaria" é uma parábola, poucos ousarão contestar. Mas uma parábola de quê, afinal? Da maldição do pecado original? Da crueldade de tradições ancestrais, submissa e rotineiramente aceites? Do mal que se vislumbra, aqui e ali, em sociedades aparentemente evoluídas? Do mecanismo ideológico criado para manter a ordem estabelecida e assim reforçar o poder dos poderosos? O conto aí está. Leiam-no, meditem-no e tomem posição!
A verdade é que em The Lottery and Other Stories "A Lotaria" surge como um fenómeno isolado. O terror e a desumanidade são substituídos nas outras histórias pela sátira hilariante ("Dorothy and My Grandmother and the Sailors", "Colloquy", "The Dummy") pela denúncia da hipocrisia e do preconceito racial ("Flower Garden"), pelos episódios plenos de sensibilidade protagonizados por seres tímidos e fracos ("Like Mother Used to Make", "Trial by Combat") e crianças solitárias e introvertidas ("Charles", "Afternoon in Linen"). Hesitou-se entre dois admiráveis retratos de mulheres vencidas que ainda não conseguiram esquecer os seus sonhos. "Elizabeth" acabou por se ver preterido em favor de "A Mulher de Greenwich Village".
Shirley Jackson (1919-1965) publicou, entre outras obras, as crónicas familiares Life among Savages, de 1953, e Raising Demons, de 1957, a narrativa histórica Witchcraft in Salem Village, de 1956, e os romances Road through the Wall, de 1948, Hangsaman, de 1951, The Bird’s Nest, de 1954, The Sundial, de 1958, The Haunting of Hill House, de 1959, e We Have Always Lived in a Castle, de 1962. The Haunting of Hill House teve adaptação cinematográfica em The Haunting (A Casa Maldita), com realização de Robert Wise. Uma obra memorável, um dos melhores "ghost films" de sempre. Quanto a We Have Always Lived in a Castle, foi o romance da autora com melhor acolhimento da parte da crítica. Mas a obra mais célebre de Shirley Jackson, aquela na qual se baseia grande parte do seu prestígio, continua a ser "A Lotaria", essa autêntica parábola negra, essa história de horror e barbárie passada numa manhã límpida e soalheira de Junho.

Jack London (1876-1916) escreveu e especialmente viveu a uma cadência intensa, que lhe arruinou a saúde e o matou jovem. Pescador ilegal, patrulheiro marítimo, operário fabril, marinheiro de longo curso, vagabundo, garimpeiro, jornalista, criador de gado, London viajou clandestinamente nos comboios através do Middle West, pesquisou ouro no Klondike, investigou as condições de vida nos bairros pobres de Londres, fez reportagens da guerra russo-japonesa e da revolução mexicana, atravessou o Pacífico no seu barco à vela e administrou os 1400 acres do seu "Beauty Ranch". Idealista, romântico, entusiasta, egocêntrico, megalómano, Jack London foi uma personagem calorosa e excessiva, «bigger than life», que não desdenhou cultivar a própria lenda.
Apoiado numa estrutura ideológica onde coexistiam um socialismo generoso, ideias extraídas do darwinismo de Herbert Spencer («a sobrevivência do mais forte») e conceitos, entendidos de forma algo simplista, de Friedrich Nietzche («a teoria do super-homem»), Jack London coloriu a sua escrita com uma espantosa experiência de vida e um prodigioso talento de contador de histórias. Movido por uma tremenda ambição e auxiliado por uma excepcional capacidade de trabalho (impôs a si próprio, durante perto de dezoito anos, escrever diariamente mil palavras), London publicou cerca de cinquenta livros e centenas de artigos.
Uma obra tão vasta, produzida a um ritmo tão dinâmico, forçosamente resultaria irregular. Livros há, no entanto, no legado de London, que se conservam populares e que deverão perdurar: o estudo sociológico The People of the Abyss, de 1903, as novelas The Call of the Wild (O Apelo da Selva), de 1903, provavelmente a sua obra-prima, e White Fang (Colmilhos Brancos), de 1906, o misto de testemunho autobiográfico e panfleto anti-alcoólico John Barleycorn (Memórias de um Bebedor), de 1913, os romances The Sea-Wolf (O Lobodos Mares), de 1904, Martin Eden, de 1909, e The Star Rover (O Colete de Forças), de 1915. E também as colectâneas de contos: The Son of the Wolf (O Filho do Lobo), de 1900, The God of his Fathers, de 1901, Children of the Frost, de 1903, Love of Life (Amor à Vida), de 1907, Lost Face (Cabeça Baixa), de 1910, The House of Pride and Other Tales of Hawaii (Os Milhões de Chun-Ah-Chun), de 1912, e On the Makaloa Mat, de 1919, entre outras.
De entre a obra de Jack London a minha preferência vai para os seus contos. Creio que, para só citar alguns exemplos, "The Law of Life", "The One Thousand Dozen", "Li Wan the Fair", "The League of the Old Men", "Love of Life", "To Build a Fire" e "Good-bye, Jack" estão entre as mais belas páginas que London escreveu. Especialmente os melhores contos do Extremo Norte, onde o escritor cristalizou e sublimou as suas vivências de pesquisador de ouro no Klondike, tornaram-se autênticos clássicos da literatura dos Estados Unidos. Surgem na antologia duas dessas pepitas de ouro.
"A Lei da Vida" é um pungente cântico fúnebre de um velho índio abandonado para morrer, aquecido por uma pequena fogueira e um punhado de recordações. No que diz respeito a "Fazer uma Fogueira", provavelmente o conto mais célebre de Jack London, dou a palavra a Frank Luther Mott, na sua introdução a The Call of the Wild: «(…) London desenha cenários e ambientes quase sempre bem e às vezes maravilhosamente bem. Há nesses cenários e ambientes uma contenção sem esforço que os torna duplamente eficazes. Uma obra-prima desta espécie é "Fazer uma Fogueira", sem dúvida um dos grandes contos americanos. Aqui há realmente três personagens: o homem, o seu cão e o Norte — e dos três o Norte é o mais poderoso. O tempo atmosférico, a paisagem, a sensibilidade humana — London maneja-os a todos eficazmente e por vezes magnificamente.»

Só aos 29 anos William Somerset Maugham (1874-1965) começou a tornar-se conhecido, através da peça A Man of Honour. Em breve se tornou um dos autores teatrais de maior sucesso na Grã-Bretanha, só cedendo a primazia a Bernard Shaw. Os êxitos sucederam-se: Lady Frederick, de 1907, The Circle, de 1921, Our Betters, de 1923, e The Constant Wife, de 1927, foram talvez os mais brilhantes. Quando deu por encerrada a carreira de dramaturgo, com Sheppey, de 1933, estava rico e famoso, com amplos meios para satisfazer a sua paixão pelas viagens.
Antes de a sua última peça subir à cena já publicara diversos romances e livros de contos, os quais mereceram a aceitação e os encómios do público, compensando-o do mau acolhimento da obra de estreia, Liza of Lambeth (Liza, a Pecadora), de 1897. A crítica mostrava-se (mostrar-se-ia sempre, aliás) bem menos entusiástica. Desagradava a numerosos críticos a indiferença do escritor pelo modernismo, a sua fidelidade e gosto pela narrativa e pela trama romanesca. Maugham, por outro lado, afirmou diversas vezes considerar-se simplesmente um "entertainer" e não estar minimamente interessado em deixar obra para a posteridade. Tratava-se, evidentemente, de um exagero e de uma pequena vingança contra críticos mais severos. Pelo menos três romances de Maugham são importantes: o já citado Liza of Lambeth, Of Human Bondage (Servidão Humana), de 1915, sem dúvida a sua obra-prima, e Cakes and Ale (Destino de um Homem), de 1930. Deverão ainda mencionar-se como obras francamente interessantes The Moon and Sixpence (Um Gosto e Seis Vinténs), de 1919, e The Razor’s Edge (O Fio da Navalha), de 1944.
Parece-me bastante equilibrado o juízo sobre Somerset feito pelo autor (apenas se identifica pelas iniciais R e K) do prefácio a uma velha edição de Cakes and Ale. Transcrevo a parte que julgo mais significativa: «As qualidades de Somerset Maugham como escritor não são de forma alguma difíceis de detectar. Um sentido dramático inato permite-lhe escrever romances sólidos, bem construídos, que nunca deixam de interessar o leitor. A sua prosa é escorreita e vigorosa e está sempre marcada por uma precisão que é rara na escrita contemporânea. Paixão e lirismo não são discerníveis, mas em seu lugar o leitor encontrará uma ironia soberbamente controlada e um espírito brilhante.»
Falta referir o contista, cuja iniciação se fez com The Trembling of a Leaf, subintitulado Little Stories of the South Sea Islands (Histórias dos Mares do Sul), de 1921. Vieram depois perto de dez colectâneas, num total de mais de uma centena de contos. Sobre esta faceta de Maugham, socorro-me novamente de um trecho da introdução de R.K.: «Se Somerset Maugham nunca tivesse escrito uma peça de teatro ou um romance, só os seus contos lhe teriam assegurado o respeito dos leitores. Estas incisivas historiazinhas, tão variadas no cenário e no tom, estão carregadinhas de ironia e observação cuidada. Assemelham-se na técnica aos contos de Maupassant. Tal como o grande autor francês, Maugham é capaz de tornar aceitável ao leitor o tema mais sórdido.»
Ironia, inteligência, elegância e destreza narrativa: eis os principais trunfos do contista, que nos deixou pérolas do brilho de "Rain", "The Pool", "Mackintosh", "The Creative Impulse", "Jane", "Sanatorium", "The Kite", "The Letter", "The Outstation" e "Red", entre muitas outras.
Presentes na antologia, "O Instinto Criativo", uma sátira mordaz aos cenáculos e círculos literários londrinos. E "O Barco da Ira", adaptado ao cinema em 1938 por Erich Pommer (The Beachcomber ou The Vessel of Wrath; título português Mr.Ginger no Pacífico), com Charles Laughton no principal papel, e em 1955 por Muriel Box (The Beachcomber; exibido em Portugal como O Vagabundo do Pacífico) protagonizado por Robert Newton. E finalmente "A Força das Circunstâncias", uma daquelas histórias de colonizadores britânicos em recantos do império (cume supremo do autor neste domínio: "The Outstation") nas quais Maugham nunca deixou de ser excepcional.

O sucesso literário em pouco amenizou as contrariedades de Jean Stafford (1915-1979), atormentada por uma série de acontecimentos e problemas altamente traumáticos: uma adolescência solitária, num meio familiar que a repelia, o suicídio de uma amiga na sua presença, um acidente automobilístico, por causa de qual se viu coagida a submeter-se a cirurgia plástica, primeiro casamento desastroso, segundo casamento "idem", terceiro casamento terminado, ao fim de quatro anos de felicidade, pela morte do marido. Resultados: crises de alcoolismo e depressão, das quais nunca se libertou totalmente. Em 1976, uma apoplexia sujeitou-a a três anos finais de enorme sofrimento.
Jean Stafford publicou três romances: Boston Adventure, de 1944, The Mountain Lion, de 1947 e The Catherine Wheel, de 1952, todos eles, especialmente os dois primeiros, bem recebidos pela crítica. Mas o facto mais relevante da carreira de Jean foi indubitavelmente a publicação dos seus contos, em Collected Short Stories, de 1969, a qual viria a ser coroada no ano seguinte com a conquista de prémio Pulitzer para a ficção. Nas palavras de Jeffrey Scheuer: «O júri do Pulitzer mencionou ‘a amplitude em temas, cenários e tons’ destes contos sombrios mas elegantemente trabalhados, os quais são muitas vezes altamente autobiográficos. As sua personagens principais, sobretudo mulheres e adolescentes, habitam uma América dura e nada romântica: um lugar de solidão e perda, onde a inocência custa a morrer, a convenção social pesa sobre o indivíduo e a experiência é uma mestra cruel.»
"Pestezinhas" é uma história de uma comicidade e de uma inventiva (em cada duas linhas deparamos com pelo menos um pormenor irresistível ou surpreendente) verdadeiramente supremas. Mas qualquer coisa de patético espreita dos bastidores da anedota, por detrás das miúdas em missão de rapinanço no armazém. E não haverá algum bocadinho da Jean Stafford adolescente naquela narradora, que não mantém um amigo e quase só atrai a atenção da família quando finge uma crise de nervos?
 
 

Chegou ao fim esta viagem de Bradbury a Stafford. Se o leitor é do género ordenado («primeiro a introdução, depois os contos»), resta-lhe mergulhar no universo dos autores aqui apresentados. Se o leitor pertence à categoria dos analíticos («quero ler os contos antes do prefácio, para depois comparar opiniões»), é altura de fechar o livro ou de voltar a uma ou outra história e aclarar pontos obscuros ou controversos. Em qualquer dos casos, o leitor (ordenado ou analítico, tanto faz) certamente encetará novas excursões em novas antologias. Pelo menos esta a intenção de quem escreve: estimular o prazer de quem lê.


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