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John Collier

Tradução do texto original com o título
Little Memento
in FANCIES AND GOODNIGHTS
Time Life Books
New York, 1962
©Luís Varela Pinto

* Ver prefácio de Fernando Fausto de Almeida


 

Uma Pequena Recordação


Um jovem que ia a caminhar em passo rápido desembocou de uma funda vereda num largo outeiro onde havia um pequeno aglomerado espalhado por um terreno relvado. O conjunto incluía um pequeno lago, patos, a Estalagem Waggoner de paredes brancas e tabuleta a balançar; enfim, todos aqueles aprestos vulgares, frescos, limpos e sossegados que se encontram em qualquer aglomerado das terras altas de Somerset.
O caminho continuava para a frente e o jovem continuou também em direcção à orla do monte, onde um portão branco abria para um comprido jardim bem provido de árvores de fruto, e ao fundo uma simpática casinha protegida por uma pequena mata e desfrutando de uma bela vista sobre o vasto vale em baixo. Um homem já de idade com um ar surpreendentemente bondoso andava a vaguear pelo jardim. Levantou os olhos quando o caminhante, Eric Gaskell, apareceu ao portão.
— Bom dia — disse ele. — Que bela manhã de Setembro!
— Bom dia — disse Eric Gaskell.
— Esta manhã pus o telescópio cá fora — disse o velho. — Agora já pouco lá vou abaixo. O caminho de volta é um bocado íngreme para mim. E assim acho que fico na mesma a saber tudo o que se passa.
— Bem, isso é bom — disse Eric.
— É — disse o velho. — O senhor é Mr.Gaskell?
— Sou — disse Eric. — Já sei. Encontrámo-nos em casa do pastor.
— Foi isso — disse o velho. — O senhor vem muitas vezes para estes lados. Vejo-o passar. Hoje pensei: «É hoje que vou ter uma pequena conversa com o jovem Mr.Gaskell!» Entre.
— Obrigado — disse Eric. — Entro só por um bocadinho.
— E o que é que o senhor e Mrs.Gaskell acham de Somerset? — perguntou o velho enquanto abria o portão.
— Gostamos muito — disse Eric.
— A minha governanta disse-me que os senhores são da costa leste. Muito bom ar. A sobrinha dela é a vossa empregada. Não acham isto aqui um tanto monótono? Demasiado atrasado? Antiquado demais?
— É isso o que mais apreciamos aqui — disse Eric sentando-se com o seu anfitrião num banco pintado de branco sob uma das macieiras.
— Hoje os jovens gostam das coisas antiquadas. No meu tempo era diferente. Sabe que agora a maior parte de nós, que aqui vivemos, somos uns velhadas. Bem, há o Capitão Felton, claro, mas o Pastor, o Almirante, Mr.Coperus, e os outros todos — todos uns velhadas. Isso não o aborrece?
— Até gosto.
— Temos os nossos passatempos — disse o velho. — Coperus anda a dedicar-se às antiguidades; o Almirante tem as suas rosas.
— E o senhor tem o seu telescópio — disse Eric.
— Ah, o meu telescópio — disse o velho. — Sim, sim, tenho o meu telescópio. Mas o meu principal passatempo — aquilo de que eu realmente me orgulho — é o meu museu.
— O senhor tem um museu? — perguntou Eric.
— Sim, um museu — disse o velho. — Gostava que o senhor lhe desse uma vista de olhos e me dissesse o que pensa dele.
— Com todo o prazer — disse Eric.
— Então venha daí — disse o velho encaminhando-o para a casa. — Raramente tenho a oportunidade de mostrar a minha colecção a um recém-chegado. Tem de cá trazer Mrs.Gaskell um destes dias. Acha que ela encontra aqui nestes sítios pacatos bastantes motivos de diversão?
— Ela gosta muito disto — disse Eric. — Mas aqui não vê muito o campo. Sai quase todos os dias de carro.
— Sozinha naquele pequeno descapotável vermelho — disse o velho. Ela gosta da casa?
— Bom, não sei muito bem — disse Eric. — Ela gostou quando a escolhemos a primavera passada. Gostou muito dela.
— É uma bela casa — disse o velho.
— Ultimamente tem-na achado um tanto opressiva, acho eu — disse Eric. — Diz que tem de sair para apanhar ar.
— É da mudança de ares — disse o velho. — Depois de viver na costa leste.
— Provavelmente é isso mesmo — disse Eric.
Nesta altura tinham chegado à porta principal. O velho abriu a porta a Eric. Entraram para uma pequena sala muito agradável e arrumada, a mobília toda bem polida e tudo arranjado meticulosamente. — Esta é a minha salinha de estar — disse o velho. — E agora também a minha sala de jantar. Ali a sala de visitas e o pequeno escritório destinei-os inteiramente ao museu. Aqui tem.
Abriu uma porta. Eric entrou, olhou à volta e ficou espantado. Estava à espera daquele tipo de coisas habitual: um armário ou dois com moedas romanas, instrumentos de silex, uma serpente em álcool, talvez um pássaro empalhado ou uns ovos. Mas aquela sala e o escritório, que se via através do vão da porta de ligação, estavam apinhados com a colecção de objectos de ferro velho mais desarranjada, ordinária, esfarrapada e bafienta que ele jamais vira. E o mais estranho de tudo é que nenhuma peça deste monte de lixo tinha ao menos a desculpa de alguma antiguidade. Era como se tivessem ido até à lixeira da aldeia e enchido várias carroças do mais diverso material e depois o tivessem despejado sobre as mesas, guarda-louças, cadeiras e no chão daquelas duas salas.
O velho observava o espanto de Eric com o maior bom humor.
— O senhor deve estar a pensar — disse ele — que esta colecção não é do tipo daquelas que geralmente se encontram num museu. E tem razão. Mas deixe-me que lhe diga, Mr.Gaskell, que todos estes objectos têm uma história. Estas peças aqui são seixos moldados e partidos pela corrente do tempo que flui por sobre as aldeias deste nosso pequeno e sossegado distrito. Todos juntos constituem um… um testemunho. Isto aqui é uma recordação da guerra: um telegrama para os Bristows, em Upper Medlum, a comunicar-lhes a morte do filho. Levei anos a conseguir obtê-lo da pobre Mrs.Bristow. Paguei-lhe uma libra por ele.
— Muito interessante — disse Eric.
— Aquele carrinho de mão — disse o velho apontando uns destroços desfeitos — foi a causa de duas mortes. Rolou por uma encosta abaixo até aqui à estrada no momento em que passava um carro. Veio em todos os jornais. «Tragédia Local».
— Extraordinário! — disse Eric.
— A vida é feita de todas estas coisas — disse o velho. — Isto é um cinto deixado por um dos trabalhadores irlandeses quando lutaram contra os ciganos. Este chapéu pertenceu a um homem que era o dono da quinta Church, perto dos senhores. Ganhou um prémio no Irish Sweep e embebedou-se até à morte, pobre homem! Estes tijolos eram da casa do meu jardineiro. Ardeu, sabe, e ninguém sabe como a coisa começou. Isto é uma serpente que, não se sabe como, entrou na igreja durante o serviço religioso o ano passado. Foi o Capitão Felton que a matou. Aí está um homem elegante, não lhe parece?
— Sim, acho que sim. Mas mal o conheço.
— É curioso. Eu pensava que o senhor e Mrs.Gaskell e o Capitão Felton eram bons amigos.
— Onde é que o senhor foi buscar essa ideia?
— Talvez seja apenas imaginação minha. Esta é uma peça bastante triste. Estes cornos eram de um touro que o lavrador Lawson pôs na minha veiga. Alguém deixou o portão aberto e ele saiu e escorneou um homem que ia na estrada.
— Nós mal conhecemos o Capitão Felton — disse Eric. Só o conhecemos quando viemos para cá.
— Está bem, está bem — disse o velho. — Isto é uma carta anónima. Aparecem aqui no nosso distrito de vez em quando, como em qualquer parte. Foi Mr.Coperus que me deu esta.
— E geralmente têm bons fundamentos, as insinuações desse vosso tipo regional de cartas anónimas? — perguntou Eric.
— Acho que sim — disse o velho. — Parece que há alguém que sabe de tudo o que se passa. Aqui está uma coisa que eu receio que não dure muito: um licoperdo do cemitério. Crescem mais lá do que em qualquer outro sítio. Veja que leve ele é.
Ele empurrou-o para Eric. Eric que estivera atabalhoadamente às voltas com o cachimbo e a bolsa do tabaco, pousou-os para pegar no licoperdo. — É muito leve — disse ele. — Magnífico.
— Venha agora por aqui — exclamou o velho ansioso. — Estava-me a esquecer das minhas botas. — Eric seguiu-o ainda com o fungo gigante nas mãos. — Estas botas — disse o velho — eram de um vagabundo encontrado afogado num lago. Naquele lago perto da casa do Capitão Felton.
— O que é que o Felton faz?
— Ele tem rendimentos — disse o velho. — Diverte-se.
— Diverte-se como? — perguntou Eric acidentalmente.
— Acho que o Capitão Felton — disse o velho piscando o olho — é muito de mulheres.
— Ah sim? — disse Eric.
— Contam para aí umas histórias — disse o velho. — O Capitão é muito discreto, mas… o senhor sabe como as coisas são. Aquele cristal grande ali… esse foi encontrado na pedreira a quinhentos metros daqui por aquela nossa estradinha ali. Ora, a pedreira está desactivada há muitos anos. Pode-se lá chegar pela estrada, e disseram-me que o Capitão acha que é um lugar muito discreto para encontros. Meu Deus, eu não devia estar na má-língua. Mas a verdade é que se sabe que os pastores costumam espreitar lá de cima e claro que as histórias espalham-se. As pessoas adoram rir à socapa deste tipo de coisas. Receio que algum dia um dos dignos cavalheiros cujas relações domésticas o Capitão, por assim dizer, violou vá espreitar lá de cima e… bem, há por lá algumas pedras bem grandes. Isto é um gato que eu empalhei. Olhe, este gato tem uma história extraordinária.
— Diga-me cá — disse Eric — o Felton agora está cá ou anda por fora?
— Está cá — disse o velho. — Vi passar o carro dele há uma hora. É um carro vermelho. Não é muitas vezes que se vê um carro vermelho, embora, por acaso, tenha passado um outro carro vermelho logo a seguir ao dele.
— Eu… eu acho que tenho de me ir embora — disse Eric.
— Já? — perguntou o velho. — Ia mesmo agora falar-lhe deste infeliz gato.
— Fica para outra vez — disse Eric.
— Está bem. Fica então para outra vez — disse o velho. — Terei sempre muito prazer. Eu acompanho-o até ao portão.
Eric saiu o portão apressadamente.
— O senhor não vai pelo mesmo caminho por onde veio? — perguntou o velho. — É mais depressa.
— Não, não. Tenho de ir por aqui — disse Eric.
— Mas por aí vai passar pela pedreira do Capitão — disse o velho. — Bom, adeus. Volte depressa.
Viu Eric caminhar rapidamente estrada abaixo e subiu mesmo uma encosta para o ver até mais longe. Quando o viu deixar a estrada e passar por cima da duna em direcção à parte de cima da pedreira, voltou placidamente para o seu museu.
Aí pegou no cachimbo e na bolsa de tabaco de Eric e acariciou-os com infinita afeição. Só muito tempo depois é que se decidiu a colocá-los cuidadosamente numa prateleira e voltar para as suas deambulações pelo jardim.
 


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